São Francisco de Assis e o Ecumenismo entre Igrejas Católicas e Protestantes
A história da Igreja cristã é marcada por momentos de unidade e também por períodos de profundas divisões. Entretanto, ao longo dos séculos, Deus levantou testemunhas cuja vida ultrapassa as fronteiras institucionais das igrejas. Entre essas figuras destaca-se São Francisco de Assis, o pobre de Assis, cuja espiritualidade continua a inspirar cristãos católicos e protestantes.
Mesmo tendo vivido séculos antes da Reforma Protestante, Francisco tornou-se, paradoxalmente, uma figura apreciada também no mundo protestante. Sua vida, profundamente enraizada no Evangelho de Jesus Cristo, oferece um caminho espiritual comum para cristãos de diferentes tradições.
O Evangelho como centro da vida cristã
O ponto central da espiritualidade de Francisco não foi uma teologia sistemática, mas a simplicidade do Evangelho. Quando ouviu a leitura do envio missionário dos discípulos (Mt 10), ele compreendeu que Deus o chamava a viver literalmente segundo o Evangelho.
Seu desejo era simples: seguir Cristo de forma radical.
O primeiro biógrafo franciscano, Tomás de Celano, registra que Francisco desejava apenas “viver segundo a forma do santo Evangelho”.¹ Essa expressão tornou-se a base da espiritualidade franciscana.
Essa centralidade da Palavra de Deus aproxima, em certo sentido, Francisco de ênfases importantes da tradição protestante. Reformadores como Martinho Lutero insistiram que a Igreja deve constantemente retornar à autoridade das Escrituras e ao chamado do Evangelho.²
Embora Francisco não tenha sido um reformador institucional, sua vida apontava para uma reforma espiritual permanente: voltar ao Cristo do Evangelho.
A pobreza evangélica como testemunho profético
No início do século XIII, a Igreja vivia um período de grande poder social e econômico. Foi nesse contexto que Francisco escolheu voluntariamente a pobreza.
Ele desejava viver como Cristo e como os apóstolos. Essa escolha não foi uma rebelião contra a Igreja, mas um chamado profético para que os cristãos redescobrissem a simplicidade do discipulado.
Por essa razão, diversos historiadores da espiritualidade consideram Francisco uma das grandes vozes de renovação da Igreja medieval.³
Sua vida lembrava que a Igreja não existe para acumular riquezas, mas para testemunhar o Reino de Deus.
A fraternidade universal
Outro aspecto profundamente marcante da espiritualidade franciscana é a fraternidade universal. Francisco via todas as criaturas como parte da criação de Deus. Por isso falava de “irmão sol”, “irmã lua” e “irmã água”.
Essa visão aparece de forma belíssima no Cântico das Criaturas, um dos textos espirituais mais conhecidos da tradição cristã.
Essa espiritualidade da criação influenciou profundamente o pensamento cristão moderno, especialmente na teologia da paz, da criação e da reconciliação.
Não é por acaso que, em tempos recentes, encontros de oração pela paz entre diferentes religiões foram realizados na cidade de Assis, inspirados pelo testemunho de Francisco e convocados por Papa João Paulo II.⁴
A redescoberta protestante de Francisco
Durante muito tempo, ambientes protestantes mantiveram certa distância da espiritualidade dos santos. Entretanto, ao longo do século XX, muitos cristãos redescobriram a profundidade espiritual da vida de Francisco.
Teólogos, historiadores e pastores passaram a estudar sua vida não como objeto de devoção, mas como testemunho cristão exemplar.
O escritor cristão G. K. Chesterton contribuiu muito para essa redescoberta com sua famosa biografia sobre Francisco, apresentando-o como um homem profundamente apaixonado pelo Evangelho.⁵
Hoje não é raro encontrar comunidades protestantes que estudam a espiritualidade franciscana ou mesmo fraternidades inspiradas em sua vida simples de oração, serviço e amor aos pobres.
Francisco e o espírito do ecumenismo
O movimento ecumênico busca a unidade visível entre os cristãos sem negar as diferenças históricas entre as igrejas.
Nesse contexto, o testemunho de Francisco oferece importantes caminhos espirituais:
1. Centralidade de Cristo
Toda a vida de Francisco girava em torno de Cristo crucificado e ressuscitado.
2. Testemunho antes de controvérsia
Ele anunciava o Evangelho mais pelo exemplo de vida do que por disputas teológicas.
3. Humildade e conversão do coração
A verdadeira unidade cristã nasce da humildade, do arrependimento e da reconciliação.
Esses princípios são fundamentais para o diálogo ecumênico contemporâneo e inspiram o trabalho de organismos cristãos internacionais, como o Conselho Mundial de Igrejas.⁶
Conclusão
A vida de São Francisco continua a falar profundamente à Igreja de hoje.
Católicos o veneram como santo e fundador de uma das maiores tradições espirituais do cristianismo. Muitos protestantes, por sua vez, o reconhecem como um poderoso testemunho de discipulado evangélico.
Em tempos marcados por divisões históricas entre igrejas, o pobre de Assis recorda a todos os cristãos uma verdade essencial: quando o Evangelho é vivido com simplicidade e fidelidade, ele se torna uma ponte de comunhão entre os discípulos de Cristo.
Assim, a vida de Francisco permanece como um convite permanente à Igreja: voltar ao Evangelho, viver em humildade e buscar a unidade no Senhor.
Notas
1. Tomás de Celano. *Vida de São Francisco*. Primeira biografia oficial do santo, escrita no século XIII.
2. Martinho Lutero. Ver especialmente sua ênfase na autoridade das Escrituras e na necessidade de reforma constante da Igreja.
3. LE GOFF, Jacques. *São Francisco de Assis*. Rio de Janeiro: Record.
4. Encontro inter-religioso de oração pela paz realizado em Assis por iniciativa de Papa João Paulo II em 1986.
5. G. K. Chesterton. *São Francisco de Assis*. São Paulo: Ecclesiae.
6. Conselho Mundial de Igrejas, organismo internacional dedicado à promoção do diálogo ecumênico entre igrejas cristãs.