O chamado “Capítulo de Pentecostes” foi uma das experiências mais marcantes da história da fraternidade fundada por São Francisco de Assis. Tratava-se de uma grande reunião anual dos frades menores realizada na época da festa de Pentecostes, em Assis, para oração, discernimento, comunhão fraterna e orientação da vida da Ordem.
O termo “capítulo” vem da prática monástica de reunir os irmãos para ouvir um capítulo da Regra e tratar da vida comunitária. Francisco assumiu essa tradição, mas deu a ela um caráter profundamente evangélico, simples e missionário.
Quando começou?
Os primeiros capítulos começaram ainda nos anos iniciais da Ordem Franciscana, provavelmente por volta de 1217 ou 1218, quando o número de irmãos cresceu rapidamente pela Itália e outras regiões da Europa.
Contudo, o mais famoso de todos foi o chamado:
“Capítulo das Esteiras” — Pentecostes de 1221
Esse capítulo aconteceu em Assis, próximo à pequena igreja da Porciúncula, durante a festa de Pentecostes do ano de 1221.
Recebeu o nome de “Capítulo das Esteiras” porque milhares de frades vieram participar e não havia construções suficientes para hospedá-los. Assim, dormiam em cabanas improvisadas feitas de galhos, palha e esteiras sobre o chão.
As crônicas franciscanas antigas afirmam que participaram cerca de 3 mil a 5 mil frades, embora os números possam ter sido simbólicos ou aproximados. Mesmo assim, é certo que foi um encontro gigantesco para a época medieval.
O Capítulo de Pentecostes não era apenas administrativo. Ele possuía um forte caráter espiritual e missionário.
Durante os dias do encontro:
Os irmãos oravam juntos;
Celebravam a Palavra e a Eucaristia;
Escutavam as exortações de Francisco;
Compartilhavam experiências missionárias;
Recebiam orientações sobre pobreza, fraternidade e pregação;
Discutiam o envio de missionários;
Tratavam das necessidades da Ordem.
Os relatos antigos descrevem um ambiente de profunda simplicidade. Os frades cozinhavam em panelas comuns, dormiam ao relento e viviam como verdadeira fraternidade evangélica.
Francisco caminhava entre os irmãos servindo, animando e exortando todos à humildade e ao amor de Cristo.
Aconteceu só uma vez?
Não. O Capítulo de Pentecostes aconteceu várias vezes.
Na verdade, tornou-se uma prática regular da Ordem Franciscana primitiva. Todos os anos, os frades procuravam reunir-se em torno de Pentecostes para fortalecer a unidade da fraternidade.
Porém, os grandes capítulos multitudinários tornaram-se difíceis conforme a Ordem cresceu enormemente pela Europa. Com o tempo, a organização foi sendo estruturada em províncias e capítulos regionais.
Mesmo assim, Pentecostes permaneceu como símbolo da unidade espiritual franciscana.
Por que Pentecostes?
Francisco via Pentecostes como a festa do envio missionário da Igreja. Assim como os apóstolos receberam o Espírito Santo e foram enviados ao mundo, os frades também deveriam viver movidos pelo Espírito de Deus.
A Ordem nascente entendia-se como uma fraternidade:
guiada pelo Espírito Santo,
fundada sobre o Evangelho,
enviada para anunciar paz e arrependimento.
Por isso, reunir-se em Pentecostes possuía um profundo significado espiritual: era renovar a vocação recebida do Senhor.
O Capítulo de 1221 e a Regra Franciscana
O Capítulo de Pentecostes de 1221 também ficou conhecido porque nele foi apresentada a chamada:
“Regra Não Bulada” (Regula non bullata),
uma versão mais extensa da regra franciscana antes da aprovação definitiva dada pelo Papa em 1223.
Esse texto mostra claramente a espiritualidade de Francisco:
pobreza radical,
simplicidade,
fidelidade ao Evangelho,
vida itinerante,
amor aos pobres,
dependência da providência divina.
Significado espiritual hoje
O Capítulo de Pentecostes permanece como um poderoso símbolo para toda espiritualidade franciscana.
Ele recorda que:
a Igreja nasce do Espírito Santo;
a fraternidade é mais importante que o poder;
a missão nasce da oração;
a simplicidade é um caminho evangélico;
a unidade cristã deve ser vivida em amor e serviço.
Para a OFSE — Ordem Franciscana dos Servos Evangélicos, essa memória possui grande valor espiritual, pois une:
franciscanismo,
vida evangélica,
intercessão,
comunhão fraterna,
ação missionária conduzida pelo Espírito Santo.
Pentecostes continua sendo o chamado de Deus para que Sua Igreja viva cheia do fogo divino, em humildade, paz e anúncio do Evangelho.
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