O Legado de Francisco de Assis no Pensamento Histórico e Religioso
Por que Francisco de Assis, um cristão medieval do século XIII, continua a cativar e provocar tantos homens e mulheres ao longo dos séculos?
O marco divisor na redescoberta acadêmica e protestante do "Poverello de Assis" deu-se no final do século XIX, com a publicação da monumental biografia crítica Vie de S. François d'Assise (1894), escrita pelo pastor e historiador protestante francês Paul Sabatier. Ao aplicar métodos rigorosos de análise documental, Sabatier apresentou Francisco não como um produto da hierarquia eclesiástica, mas como um reformador espiritual autônomo, cuja vivência radical do Evangelho antecipou os anseios de liberdade e pureza da própria Reforma [1].
Esse fascínio ultrapassou barreiras confessionais, atraindo a admiração de intelectuais seculares, cientistas e pensadores de tradição protestante. Vejamos alguns exemplos expressivos:
Albert Einstein (Físico Teórico): Einstein via em Francisco uma das almas mais puras da história, aproximando-o de grandes pensadores livres pela busca incansável de essência e simplicidade. A esse respeito, escreveu: "Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Espinosa se assemelham profundamente" [2].
Hermann Hesse (Escritor, Poeta e Filósofo Protestante): Criado em um lar com forte herança pietista, Hesse era profundamente fascinado pelo santo, chegando a dedicar-lhe uma biografía. Para o autor, Francisco personificava a alma que reconcilia o ser humano com a natureza, resumindo sua essência na célebre premissa: "E, se os homens se esquecessem dele [Francisco], as pedras e as fontes, as flores e os pássaros dele falariam" [3].
Paul Tillich (Teólogo e Filósofo Protestante): Um dos maiores teólogos do século XX, Tillich valorizava o movimento franciscano por resgatar a dimensão mística e a presença viva do divino no mundo natural, rompendo com o legalismo estrito. Para ele, o ideal de pobreza e a mística de Francisco representaram uma tentativa radical de superar a cisão entre criatura e Criador, apontando para "uma profundidade e grandeza da existência" [4] onde a fé se manifesta na simplicidade imediata do amor.
Martinho Lutero (Reformador Protestante): Embora fizesse severas críticas à Igreja medieval e ao sistema de ordens religiosas, Lutero abria exceções em seus sermões para exaltar a pureza de intenções de Francisco em imitar a vida de Cristo na pobreza. O reformador apontava que, dentre os grandes nomes daquela tradição, o santo esteve entre os raros que buscaram "seguir a Cristo em extrema pobreza e simplicidade de coração, despido de glória mundana" [5].
Ao revisitarmos essa trajetória, percebemos que continuamos a descobrir e a nos inspirar no testemunho daqueles que abraçaram a fé com singularidade. Francisco de Assis destaca-se como uma figura ecumênica que atinge católicos romanos, ortodoxos e protestantes, apontando sempre para o alto e reconduzindo nossa caminhada a uma vivência unicamente cristocêntrica.
Louvado seja Deus pelo nosso irmão Francisco de Assis.
Edson Cortasio Sardinha
Referências
[1] SABATIER, Paul. Vida de São Francisco de Assis. Tradução de Basílio de Magalhães. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1928. (Nota: A primeira edição francesa foi publicada em Paris pela Fischbacher em 1894).
[2] EINSTEIN, Albert. The Expanded Quotable Einstein. Editado por Alice Calaprice. Princeton: Princeton University Press, 2000. (Reflexões sobre pensadores livres e a ordem cósmica).
[3] HESSE, Hermann. Francisco de Assis. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2022.
[4] TILLICH, Paul. A Era Protestante. São Paulo: Astrolábio / Editora da USP, 1984. (Ensaios sobre mística medieval e o protestantismo).
[5] LUTERO, Martinho. Doutrina e Vida: Conversas à Mesa (Tischreden). [S.l.]: Obras Selecionadas, (Registros sobre a pobreza voluntária e os reformadores).
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