Espelho da Perfeição - 1
CAPÍTULO I - A PERFEIÇÃO DA POBREZA.
Introdução
O Espelho da Perfeição (Speculum Perfectionis) é uma das fontes biográficas mais profundas do franciscanismo primitivo. Escrito por volta de 1321, ele recolhe a memória viva dos companheiros de São Francisco sobre o carisma original. O Capítulo 2 aborda o tema nevrálgico da perfeição da pobreza, respondendo diretamente ao questionamento de Frei Ricério sobre qual era a verdadeira intenção de Francisco: viver a pobreza de forma radical ou ceder às acomodações da nascente Ordem.
Neste trecho, Francisco revela seu ideal intransigente: os frades deveriam possuir apenas o hábito, o cíngulo e os calções. Contudo, o texto também expõe um drama humano e pastoral: o conflito entre o ideal evangélico absoluto e a fragilidade humana da maioria dos frades que consideravam tal exigência "pesada e insuportável". Francisco, por amor à paz e temor ao escândalo, opta pela condescendência, mas decide viver essa radicalidade em si mesmo para não ser infiel à inspiração divina.
Aplicação Prática para os Dias Atuais na OFSE
Para os irmãos e irmãs da Ordem Franciscana Secular (OFSE) no século XXI, o Capítulo 2 do Espelho da Perfeição não é uma peça de museu ou um convite à culpa por vivermos no mundo, mas um provocativo espelho espiritual. Como traduzir essa "primeira e última intenção" da pobreza franciscanista para a nossa realidade secular?
1. A Pobreza como "Desapropriação" Interior e Material
No contexto franciscano: Francisco pedia a nudez de bens (nem mesmo livros de estudo para os clérigos).
Na vida da OFSE: O secular não vive em mosteiros nem pode descartar bens necessários para a sobrevivência e sustento da família. A pobreza evangélica, para o secular, manifesta-se no uso desapegado dos bens.
Aplicação prática: Cuidar para que as posses, a carreira, o status ou a tecnologia (smartphones, conforto) não se tornem donos do nosso coração. É a prática da minoridade: reconhecer-se administrador, e não dono, de tudo o que Deus nos confiou, praticando a generosidade e a partilha com os mais necessitados.
No contexto franciscano: Francisco pedia a nudez de bens (nem mesmo livros de estudo para os clérigos).
Na vida da OFSE: O secular não vive em mosteiros nem pode descartar bens necessários para a sobrevivência e sustento da família. A pobreza evangélica, para o secular, manifesta-se no uso desapegado dos bens.
Aplicação prática: Cuidar para que as posses, a carreira, o status ou a tecnologia (smartphones, conforto) não se tornem donos do nosso coração. É a prática da minoridade: reconhecer-se administrador, e não dono, de tudo o que Deus nos confiou, praticando a generosidade e a partilha com os mais necessitados.
2. O Perigo da "Insustentabilidade" dos Ideais e a Graça da Conversão Contínua
No contexto franciscano: Os frades da época achavam a Regra "demasiado pesada e insuportável", preferindo as facilidades e a segurança institucional.
Na vida da OFSE: Muitas vezes, a tentação do secular moderno é diluir o Evangelho e as exigências da Regra da OFSE para que se ajustem confortavelmente ao consumismo e ao individualismo da sociedade atual. O compromisso com a justiça social, a simplicidade de vida e a minoridade pode parecer "pesado demais".
Aplicação prática: Em vez de rejeitar o ideal por parecer difícil, devemos acolher a nossa limitação com humildade, mas sem abaixar a fasquia do Evangelho. Assim como Francisco, que vivia em si mesmo aquilo que os outros não conseguiam abraçar plenamente, o secular deve ser um testemunho vivo de radicalidade evangélica no seu ambiente de trabalho, família e política, aceitando o processo de conversão diária.
No contexto franciscano: Os frades da época achavam a Regra "demasiado pesada e insuportável", preferindo as facilidades e a segurança institucional.
Na vida da OFSE: Muitas vezes, a tentação do secular moderno é diluir o Evangelho e as exigências da Regra da OFSE para que se ajustem confortavelmente ao consumismo e ao individualismo da sociedade atual. O compromisso com a justiça social, a simplicidade de vida e a minoridade pode parecer "pesado demais".
Aplicação prática: Em vez de rejeitar o ideal por parecer difícil, devemos acolher a nossa limitação com humildade, mas sem abaixar a fasquia do Evangelho. Assim como Francisco, que vivia em si mesmo aquilo que os outros não conseguiam abraçar plenamente, o secular deve ser um testemunho vivo de radicalidade evangélica no seu ambiente de trabalho, família e política, aceitando o processo de conversão diária.
3. Gestão de Conflitos, Paz e Fraternidade
No contexto franciscano: Francisco evitou discussões e rupturas violentas por temer o escândalo, preferindo ceder a ponto de se consolar na fidelidade interior a Deus.
Na vida da OFSE: Nas fraternidades seculares e nas famílias, frequentemente surgem divergências sobre rumos, prioridades, administração financeira ou o nível de compromisso espiritual.
Aplicação prática: O espírito franciscano nos ensina a priorizar a comunhão e a paz fraterna acima de disputas de ego ou rigores legalistas. A verdadeira autoridade e o verdadeiro testemunho não se impõem pela força ou pela imposição de fardos aos outros, mas pelo exemplo pessoal de entrega e coerência.
No contexto franciscano: Francisco evitou discussões e rupturas violentas por temer o escândalo, preferindo ceder a ponto de se consolar na fidelidade interior a Deus.
Na vida da OFSE: Nas fraternidades seculares e nas famílias, frequentemente surgem divergências sobre rumos, prioridades, administração financeira ou o nível de compromisso espiritual.
Aplicação prática: O espírito franciscano nos ensina a priorizar a comunhão e a paz fraterna acima de disputas de ego ou rigores legalistas. A verdadeira autoridade e o verdadeiro testemunho não se impõem pela força ou pela imposição de fardos aos outros, mas pelo exemplo pessoal de entrega e coerência.
Conclusão
O Capítulo 2 do Espelho da Perfeição nos recorda que o franciscanismo é, antes de tudo, uma questão de intenção de coração e de fidelidade à graça. Para a OFSE hoje, abraçar a pobreza de Francisco significa viver com o essencial, ser livre das amarras do consumismo, testemunhar a simplicidade no cotidiano secular e buscar a santidade não por imposição, mas por um amor apaixonado a Cristo, que primeiro se fez pobre por nós.
Irmão/Irmã, em meio aos confortos e exigências da vida moderna, de que "excesso" você sente que São Francisco o convida a se despojar hoje para viver com mais liberdade o essencial do Evangelho?
Espelho da Perfeição - 1
CAPÍTULO I - A PERFEIÇÃO DA POBREZA.
Capítulo 2. Primeiro, como São Francisco declarou a vontade e a intenção que teve desde o princípio até o fim sobre a observância da pobreza.
1 Frei Ricério da Marca, nobre de nascimento e mais nobre em santidade, a quem o bem-aventurado Francisco amava com grande afeto, foi um dia visitar o bem-aventurado Francisco no palácio do bispo de Assis e, entre outras coisas que conversou com ele sobre a situação da Ordem e a observância da Regra, interrogou-o especialmente sobre isto, dizendo: 2 “Conta-me, pai, a intenção que tiveste quando, no princípio, começaste a receber frades, a intenção que tens agora e crês que terás até o dia de tua morte; 3 para que eu tenha certeza de tua primeira e última intenção e vontade: será que nós, frades clérigos, que temos tantos livros, podemos conservá-los, embora digamos que pertencem à religião?”
4 Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Irmão, digo-te que esta foi e é minha primeira e última intenção e vontade, se os frades tivessem acreditado em mim, que nenhum dos frades deveria ter senão o hábito, com o cíngulo e os calções, conforme nos concede a nossa Regra”.
5 Mas, se algum frade quiser dizer: Por que o bem-aventurado Francisco não fez com que os frades observassem a estrita pobreza, como disse a Frei Ricério, nem ordenou que assim fosse observada, 6 nós, que com ele estivemos (cf. 2Pd 1,18), respondemos conforme ouvimos de sua boca, porque ele disse aos frades estas e muitas outras coisas; e até mandou escrever muitas coisas na regra 7 que, com assídua oração e meditação, pedia ao Senhor para a utilidade da Ordem, afirmando que eram totalmente conformes à vontade do Senhor. 8 Mas, depois que as propunha aos frades, pareciam-lhes demasiado pesadas e insuportáveis (cf. Mt 23,4), já que, então, ignoravam o que aconteceria na religião depois de sua morte.
9 E porque temia muito o escândalo em si e nos frades, não queria discutir com eles, mas, contra a vontade, condescendia com a vontade deles e desculpava-se diante do Senhor. 10 Mas para que a palavra que colocava em sua boca (cf. Ex 4,15) para a utilidade dos frades não voltasse vazia (cf. Is 55,11) ao Senhor, queria que primeiramente se realizasse nele, a fim de receber a mercê do Senhor. E, finalmente, nisso seu espírito se aquietava e se consolava.
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