quarta-feira, 13 de junho de 2012

Caminho da Graça na Conversão de Francisco de Assis



Caminho da Graça na Conversão de São Francisco de Assis

Irmão Rev. Edson Cortasio Sardinha

“A graça do Espírito Santo procura despertar a fé, a conversão do coração e a adesão à vontade do Pai”. [1]
É esta graça que atuou na vida de Francisco. A ação da Graça de Deus em sua história é um claro testemunho do que Deus pode fazer na vida da pessoa que se entrega totalmente a Cristo.
O caminho de conversão de Francisco provoca em nós mudanças e nos leva a um desequilibro. A pessoa que lê o testemunho de Francisco percebe o poder de Cristo que transforma e muda a alma humana. O segredo de São Francisco está em sua conversão. Este conversão também é o caminho que tem transformado a vida de santos e santas de Deus. Somos desafiados a olhar Francisco e Clara como testemunhos vivos da conversão que o Espírito de Deus deseja operar em nossas vidas cotidianamente.
Leio o caminho da conversão de Francisco fazendo caminhos para a minha própria conversão ao projeto de Deus.

  1. A conversão é um ato da graça de Deus.
Pela graça de Deus qualquer pessoa pode ter uma experiência total e até mesmo progressiva de conversão espiritual. A conversão é uma ação de Deus na vida da pessoa. Não nasce do esforço humano, mas da graça do Senhor e seu imenso desejo de transformar. Qualquer pessoa pode ser transformada por Deus.
            Tomás de Celano evidencia a graça de Deus na vida de Francisco. Ele escreve: “Desde então esteve sobre ele a mão do Senhor e a destra do Altíssimo o transformou para que, por seu intermédio, fosse concedida aos pecadores a confiança na obtenção da graça e desse modo se tornasse um exemplo de conversão para Deus diante de todos”[2].
            Francisco se transformou em exemplo de conversão por intermédio unicamente da graça de Deus.
            Celano diz que Francisco era um homem simples “não pela natureza, mas pela graça”[3]
            A luta que Francisco travou com sigo mesmo pela sua conversão foi possível pela ação da graça de Deus em sua vida, como diz a Legenda dos Três Cavaleiros: “Desde então começou cada vez mais a desprezar-se, até conseguir, pela graça de Deus, a mais perfeita vitória sobre si mesmo”[4].
            Foi a ação da Graça de Deus que o fez ser um novo homem. Francisco não escolheu Deus. Ele foi escolhido pelo Senhor. O Anônimo Perusiano diz: “Por graça divina sentiu-se de repente mudado, assim lhe parecia, num outro homem”[5].
            Foi a graça de Deus que deu a Francisco os primeiros discípulos na caminhada da conversão radical e evangélica. “Vendo e ouvindo isto, dois homens de Assis, inspirados pela graça divina, aproximaram-se humildemente dele”.[6], conforme o Anônimo Perusiano.
            A experiência de Francisco foi unicamente com a graça de Deus. Zavalloni diz que  “é na conversação com Deus, é na oração, que Francisco compreendeu de que coisa o seu tempo tinha necessidade: não andou a consultar nem doutos nem bibliotecas, mas lançou-se na perspectiva focal do mistério de Deus”[7].




  1. A conversão é um ato da graça de Deus que espera uma resposta humana.
Francisco seguia um caminho de pecado. Tomás de Celano fala de sua vida mundana. Um homem que não tinha tempo para Deus e que gastava o dinheiro de seu pai sem responsabilidade. Pensava no imediatismo.
Tomás de Celano inicia sua Biografia dizendo: “Vivia na cidade de Assis, na região do vale de Espoleto, um homem chamado Francisco. Desde os primeiros anos foi criado pelos pais insensatamente, ao sabor das vaidades do mundo. Imitou-lhes por muito tempo o triste procedimento e tornou-se ainda mais frívolo e vaidoso”[8].
Francisco foi educado para ser um jovem “mundano”. Celano diz que: “Nesses tristes princípios foi educado desde a infância... Neles perdeu e consumiu miseravelmente o seu tempo quase até os vinte e cinco anos. Pior ainda: superou os jovens da sua idade nas frivolidades e se apresentava generosamente como um incitador para o mal e um rival em loucuras. Todos o admiravam e ele procurava sobrepujar aos outros no fausto da vanglória, nos jogos, nos passatempos, nas risadas e nas conversas fúteis, nas canções e nas roupas delicadas e luxuosas”.[9]
Deus foi sinalizando sua graça na vida de Francisco. Esta sinalização levou um bom tempo. O período da prisão na Perúsia foi um período de encontro com as sinalizações da Graça na vida de Francisco. Sua longa doença foi um caminho de graça. A voz que ouviu no caminho para a batalha ("Quem te pode ser melhor, o senhor ou o escravo?" Ele responde: "O senhor". A voz lhe replicou: "E então, por que abandonas o Senhor pelo escravo; o Príncipe pelo empregado?" Francisco responde: "Senhor, que queres que eu faça?" A voz tornou: "Volta para a tua cidade, para fazer o que o Senhor te vai revelar")[10] foi um grito da graça na vida de Francisco.
Todos estes sinais da graça foram realizados esperando pacientemente a resposta humana de Francisco.
Como responder? Procurando mais na Bíblia, na igreja e na liturgia. Dando as roupas e os tecidos do pai aos pobres. Beijando o mendigo e leproso. Reconstruindo capelas e igrejas. Se submetendo as orientações de seus líderes. Amando a Igreja. Francisco em sua conversão como resposta a graça de Deus foi dando passos e descobrindo caminhos.
Pela graça alcançou sua conversão total. Mas teve que responder a esta graça e trabalhar diariamente sua conversão. Boaventura diz: “Como leal seguidor de Jesus crucificado, Francisco crucificou sua carne com suas paixões e concupiscências, desde o inicio de sua conversão, impondo-se uma disciplina rigorosa...”.[11]
            Francisco insistiu em trabalhar sua experiência de conversão. A conversão é um ato da graça de Deus que exige uma resposta humana. Francisco “como verdadeiro imitador e discípulo do Salvador, entregou-se, no princípio de sua conversão, com todo esforço, com todo desejo, com toda decisão a buscar, encontrar e preservar a santa pobreza, sem duvidar de adversidades, sem temer nada de sinistro, sem fugir a nenhum trabalho, sem escapar de nenhuma angústia do corpo, para que lhe fosse dada finalmente a opção de chegar àquela a quem o Senhor entregou as chaves do reino dos céus”[12].         

  1. A Conversão como ato da graça de Deus é experiência espiritual
Algumas pessoas desejam trilhar os caminhos de Francisco a partir de eixos carnais, sociais e humanos. Isso é possível até certo ponto do caminho, mas também é frustrante no final. Vocação sem encontro com Deus se resume em cansaço.
Tudo foi possível para Francisco por causa de sua experiência espiritual com Deus. A Legenda Perusiana, relatando o sofrimento de Francisco com relação ao tratamento da enfermidade nos olhos nos informa que, mesmo diante da dor, “ele era arrebatado na contemplação de Deus[13]. Ele suportava a dor e cumpriu sua vida de testemunho por causa de sua experiência espiritual com Deus.
Não conseguimos construir projetos de conversões sem uma experiência espiritual com Deus. Seria um caminho impossível. Todos os santos e santas de Deus nos apontam para Deus. É Nele, o mistério, que reside nossa conversão para o caminho da santidade.
Sabemos que Francisco é um inspirador e provocador.
Vemos Francisco e desejamos ser como Francisco. Então começamos a tentar andar atrás de Francisco. Isso é fascinante. Mas percebemos que é uma utopia baseada no calor da emoção. Quando tentamos dar profundidade a nossa experiência, construímos com as próprias mãos caminhos, estatutos e Regras para fornecer a experiência necessária. Mas isso também não dá certo.
As irmandades, Ordens e Casas Religiosas conseguem celebrar o carisma, mas o carisma não é passado como uma transfusão de sangue na instrumentalidade das instituições humanas.
A conversão como ato da Graça de Deus é uma experiência espiritual com Deus. Francisco conseguiu trilhar este caminho devido seu encontro com Deus.

Quantos encontros Francisco teve com Deus? Muitos.
Alguns foram registrados nas Fontes Biográficas e nos primeiros escritos; e outros não. O Encontro de Francisco com Deus não dá para ser colocado num papel. É uma experiência única, intransferível em uma dimensão pessoal/espiritual.
Vemos um homem transformado pela graça e vivendo a realidade de Cristo. O mais parecido com Cristo. O mais apaixonado por Cristo. Desejamos imitar. Criamos legendas. A História é contata e enfeitada a cada dia. O conto se desenvolve tanto que acaba sendo artificial e raso. Fica apenas uma imagem estática de um ser que talvez não existisse ou é venerado pela religiosidade popular como uma imagem muito rápida e apressada de alguém.
Mas todo o caminho de Francisco, por mais provocador da sociedade, por mais palpável para as teologias sociais, por mais que seja ícone dos discursos de políticos parecendo “bons meninos”, foi um caminho da Graça que nasceu de uma experiência espiritual.
Parece que vejo Francisco apontando para o Cristo crucificado e morto, e me dizendo: “Faça sua própria experiência com Ele”!
A experiência de Francisco foi unicamente com Cristo. O Cristo lhe falou e converteu seu coração. Seu interior ficou derretido pela experiência com o Cristo crucificado, como ensinou seu discípulo Tomás de Celano[14].
Aqui está um problema muito sutil e que muitas vezes não conseguimos enxergar. Minha experiência franciscana não pode ser com Francisco, mas com o JESUS que Francisco experimentou em sua conversão e vida.
Se eu conseguir perceber a graça de Deus e sua vocação para minha vida, terei um encontro com JESUS e serei um autêntico Franciscano, caminhando no caminho que Francisco caminhou. Minha experiência será enriquecedora e verdadeira baseada no Encontro com Cristo.
A Experiência da conversão é um caminho espiritual com Cristo.
Francisco não confiava na força de sua vontade ou na carne. Por conhecer a própria fraqueza humana, buscava força na sua constante e progressiva experiência com Cristo através da oração. Boaventura diz que “A oração era também uma defesa ao se entregar à ação, pois persistindo nela, fugia de confiar em suas próprias capacidades, punha toda a sua confiança na bondade divina, lançando no Senhor os seus cuidados[15].


  1. A Conversão progressiva pela graça
Francisco não teve a totalidade de sua experiência no longo período de enfermidade. Também não conseguiu sua plena conversão construindo igrejas.
Sua conversão foi um caminho. Caminho longo, de aprendizado, experiências e renuncias.
Boaventura fala deste longo caminho de renúncia:

 “No inicio de sua conversão, com a coragem e o fervor do Espírito, chegou, em pleno inverno, a se lançar num fosso d'água gelada ou de neve para sufocar inteiramente o inimigo que cada qual traz em si e preservar dos ataques da volúpia a veste branca da inocência. Foi por essas práticas que começou a brilhar nele a bela pureza, o inteiro domínio que ele obteve sobre a carne. Parecia que tinha feito contrato com os olhos (cf. Jó 31,1): não só fugia a qualquer espetáculo que pudesse deleitar a carne, mas se recusava mesmo a olhar tudo o que apresentasse caráter de curiosidade ou de futilidade”[16].

Ele amava a igreja, aprendia com a igreja e através da igreja teve suas experiências com Deus. Mas também, de forma solitária, buscou um crescimento em Cristo e teve várias de suas experiências diretas com Deus.  
Sua conversão progressiva é trabalhada no silêncio e nos diversos retiros espirituais que exercia.
Tomás de Celano dá um importante testemunho a este respeito:

Passado algum tempo nesse lugar (um lugar calmo, secreto e solitário para poder se entregar a Deus)  e tendo conseguido, por uma oração contínua e uma contemplação freqüente, uma inefável familiaridade com Deus, teve vontade de saber o que o Rei eterno mais queria ou podia querer dele. Buscava com afã e desejava com devoção saber de que modo, por que caminho e com que desejos poderia aderir com maior perfeição ao Senhor Deus segundo a inspiração e o beneplácito de sua vontade[17].

Francisco foi um homem com fome de Deus. Entendeu que o céu sustentava a terra. Sentava com a graça de Deus diariamente. A graça de Deus trabalhou em sua vida progressivamente a conversão.

  1. A conversão que provoca
A conversão de Francisco de Assis não foi um encontro religioso que o colocou no padrão dos fiéis da época.
Sua conversão não o colocou na média de sua geração. Não foi uma conversão medíocre. Foi uma conversão abaixo, escandalizadora, anormal, transformadora e provocante.
Foi uma conversão provocadora.
Francisco provocou sua geração acolhendo o leproso com seus abraços e beijos. Sua atitude causou perseguição, exclusão e revolta nos próprios religiosos.
A conversão de Francisco provocou e trouxe reações imediatas sobre várias áreas:

a)      Sobre a família:
A Família de Francisco vivia da venda do comércio e do status. A lepra era conhecida como uma desgraça que causava exclusão total do indivíduo com relação até com a família. A conversão que levou Francisco a beijar um leproso trouxe angústia para a própria família. Além de prejudicar as vendas dos tecidos, rebaixar o status da família, também vinha o desconforto em poder ter um filho doente  e excluído da sociedade e dos sonhos dos jovens.
A conversão de Francisco causou prejuízo financeiro na empresa do pai. O fato de pegar os tecidos e dar aos pobres foi uma afronta provocadora aos projetos do mercado.
A família também sofreu com o novo estilo de vida que a conversão causou em Francisco. Passou a andar como mendigo, recolhendo pão para sobreviver. Ele perdeu a menor das vaidades e passou a ser um indigente diante dos olhos dos pais.
O pai poderia ser consolado se Francisco pelo menos aceitasse entrar na estrutura normal da igreja e ser um padre ou um monge agostiniano ou beneditino. Francisco não aceita esta opção. Para ele este não era o caminho exigido pela sua conversão.
Francisco abre mão da herança do pai terreno e ganha as heranças do pai celeste. Tomás de Celano testemunha que Francisco disse “na frente de muitas pessoas que se tinham ajuntado: "Agora poderei dizer livremente: Pai nosso, que estais nos céus. Pedro Bernardone já não é meu pai, e a ele devolvo tanto o dinheiro como a minha roupa toda. Irei nu para o Senhor"[18].

    
b)     Sobre a Igreja
A Igreja tinha caminhos prontos. Francisco teve a oportunidade de viver sua conversão nos caminhos tradicionais e naturais da igreja. Mas sua conversão além de restaurar a igreja que estava com as bases quebradas, também causou um abalo em bases estabelecidas. Todos que viviam na fé de que a riqueza e a glória eram sinais de bênçãos, foram criticados por sua conversão silenciosa. “Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza”[19].
Os homens da igreja tentaram levar Francisco para o clero ou para o monastério[20]. Francisco resistiu. Deseja apenas ser um arauto de Deus e anunciar livre sua grande descoberta: O Evangelho do Senhor JESUS.
Pela graça de Deus, Francisco teve o apoio do papa Inocêncio III[21].
Se Francisco não tivesse o apoio do Papa, sua relação com a igreja poderia ser desastrosa e sofredora, pois sua conversão não estava na trilha do cristianismo de sua época. Sua conversão provocou a própria igreja, apesar de venerar os valores, doutrinas e a hierarquia da igreja. Não falou contra a igreja, apenas caminhou no caminhou que muitos da igreja não caminhavam.

c)      Sobre a sociedade de sua época.
A conversão de Francisco provocou a sociedade. Ele desprezou os que os pobres mais desejavam e fez os ricos se sentirem culpados. Caminhou na contramão de sua época. Desprezou o resultado do esforço egoísta dos homens. Estabeleceu em sua vida um caminho a margem de sua época. Sua conversão influenciou médicos, advogados, professores, príncipes.
Seus discípulos saíram do trilho da sociedade. Cantaram o que ninguém cantava e dançaram a música que ninguém tocava. Francisco viveu os valores do Reino de Deus de forma radical, total e inquietante. Colocou o Evangelho de Cristo como meta em sua vida sem pedir licença. Quis viver a radicalidade do amor e da fé evangélica mesmo contra o bom senso de sua sociedade.

d)     Sobre seu futuro
O que Francisco como jovem desejava para seu futuro?
Gostava de gastar o dinheiro do pai, vivia nas festas e no pecado. Seria um comerciante ou um grande cavaleiro. Seu pai desejava muito seu envolvimento na Cruzada para trazer prestígio e poder para a própria família. O futuro do jovem Francisco seria maravilhoso. Mas Francisco joga tudo fora por amor ao Evangelho do Senhor.
Seu futuro fica comprometido. Ele sai da rota. Joga os sonhos juvenis no lixo e caminha radicalmente contrário a todos. A sua conversão faz com que as expectativas dos outros fossem frustradas, principalmente suas próprias expectativas. 

e)      Sobre o cristianismo
Escrevo este texto como protestante de uma igreja Histórica do século XVIII. Ouvi a história de Francisco em minha preparação para a Primeira Comunhão. Li o “Cântico do Irmão Sol” quando ainda era aluno do primário, com 8 anos de idade. Li textos, assisti filmes e me apaixonei por sua conversão. Foi o homem mais evangélico de conheci.
Não apenas a Igreja Católica foi provocada pela experiência de Francisco, mas toda a cristandade tem sido impactada pela história de sua conversão. Atualmente existem muitos grupos franciscanos dentro das igrejas protestantes.
A protestante Madre Schlink, da Irmandade Evangélica de Maria, em seu livro “O Mundo de São Francisco” escreve:

“Em sua personalidade, seu caráter e sua vida descobri a mensagem do Evangelho: "Se não vos tornardes como crianças... Graças te dou, ó Pai, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos, aos fracos e ignorantes..." O cativante coração infantil e humildade de Francisco de Assis, que se tornaram a fonte de todo poder e autoridade no seu ministério por Jesus, tocaram o meu coração. O ardente amor por Jesus, nascido do arrependimento, a estreita comunhão do coração com Jesus, quem é a fonte de toda a alegria. Tudo isso eu podia ver na vida de S.Francisco. Isso fortaleceu em mim o desejo de amar mais a Jesus. Dos resultados da vida e discipulado de S.Francisco, percebi que somente o amor ardente por Jesus traz a solução para os problemas e dificuldades na Igreja e no mundo,  como foi demonstrado em certo sentido na sua época[22].

A conversão de Francisco abalou e abala o cristianismo, provoca a religião de mercado, ridiculariza as conversões artificiais e rasas das muitas igrejas chamadas evangélicas da atualidade. A conversão de Francisco restaura um modelo de conversão que não se encaixa nas estruturas do cristianismo moderno.
  
f)       Sobre o mundo
O mundo rejeita o pobre e trabalha num projeto de exclusão. Os valores do mundo leva-nos a ter bens além do necessário. Somos viciados pelo comércio e pelas novas tecnologias.
O mundo diz que precisamos do seguinte produto para ser feliz. Ser feliz é comprar uma cama nova. Ser feliz é andar na moda. Ser feliz é ter a última tecnologia. O ter exclui e aumenta a desigualdade social.
A conversão de Francisco denuncia e incomoda a sociedade atual. Alguns pais ficam desesperados quando seus filhos desejam uma conversão radical como a que Francisco teve. Ser franciscano incomoda o mundo e traz inquietação.  

Conclusão:  Um Chamado a conversão
Sou cristão e sirvo o Senhor como presbítero, mas leio Francisco de Assis como um forte apelo a minha própria conversão cotidiana. Uma conversão que causa estranheza em minha própria rota. Uma conversão que frustra as expectativas que os outros tem sobre mim. Uma conversão que coloca Deus em seu verdadeiro lugar em minha vida. Uma conversão que me dá medo.
Mas, na essência da minha vida, é esta conversão que desejo sempre. Não ganhar a Salvação pelo esforço religioso, mas viver na celebração da Salvação que ganhei pela Graça. Viver rico não tendo nada. Viver dançando sem música, por ter a música da conversão dentro de mim.
Francisco viveu uma conversão radical, transformadora e evangélica.
É esta que busco para a minha curta, pequena e insignificante peregrinação.
Toda a nossa vida e morte são para o “louvor, glória e honra de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo reino e império permanecerá firme e estável por todos os séculos dos séculos. Amém”[23].

Irmão Rev. Edson Cortasio Sardinha – Presbítero (pastor) da Igreja Metodista no Brasil, Teólogo, Educador, Especialista em Ciências da Religião e em Liturgia e Artes Sacras.



[1] Catecismo da Igreja Católica. C.75.10 Conversão dom do Espírito Santo - §1098
[2] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 2
[3] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.21. - 58
[4] LEGENDA DOS TRÊS COMPANHEIROS : C.5. parágrafo 11
[5] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – Parágrafo 6.
[6] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – Parágrafo 10.
[7] Zavalloni, Roberto. Pedagogia Franciscana. Desenvolvimento e perspectivas. Editora Vozes: Petrópolis RJ, 1999. pg 131.
[8] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 1
[9] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1. - 2
[10] ANÔNIMO PERUSINO : C.2. – parágrafo 6.
[11] S. Boaventura LEGENDA MENOR : C.3. Parágrafo 1
[12] SACRUM COMMERCIUM” ALIANÇA DE SÃO FRANCISCO COM A SENHORA POBREZA: C.1. Parágrafo 4.
[13] LEGENDA DE PERUSA: C.86. “E se deleitava tanto com elas, e seu espírito tinha tamanha compaixão e piedade por elas que se perturbava quando alguém não as tratava bem. E também conversava com elas com alegria interior e exterior, como se sentissem, entendessem e falassem de Deus, de forma que, muitas vezes, quando fazia isso, era arrebatado na contemplação de deus. Pois, uma vez, quando estava sentado perto do fogo, sem que ele percebesse, o fogo invadiu seus panos de linho que cobriam a perna. Quando sentiu o calor do fogo e o seu companheiro viu que o fogo estava queimando seus panos, correu para apagá-lo. Mas ele lhe disse: “Irmão caríssimo, não queira fazer mal ao irmão fogo”. E assim não lhe permitiu de modo algum que o apagasse”.
[14] Tomás de Celano TRATADO DOS MILAGRES DO BEM-AVENTURADO FRANCISCO: C.2. Parágrafo 2. "Francisco, vá reparar minha casa que, como vês, está sendo toda destruída". Desde então ficou profundamente gravada em seu coração a lembrança da paixão do Senhor e, realizada uma enorme conversão interior, sua alma começou a derreter-se, quando o amado lhe falou.”
[15] S. Boaventura LEGENDA MAIOR : C 10. Zelo na oração e poder de sua prece. – Parágrafo 1
[16] S. BoaventuraLEGENDA MENOR : C .3. AS VIRTUDES COM QUE DEUS O DISTINGUIU – parágrafo 1
[17] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.2,  C 2. O maior desejo de São Francisco. Compreende a vontade de Deus a seu respeito ao abrir o livro.
[18] Tomás de Celano. SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L 1, C 7. A perseguição do pai e de seu irmão de sangue.
[19] Tomás de Celano SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.6, C 25. Louvor à Pobreza.
[20] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.13 : “São Francisco também se apresentou ao senhor bispo de Sabina, João de São Paulo, que se destacava entre os outros príncipes e dignitários da Cúria Romana por "desprezar as coisas terrenas e aspirar às celestiais" Este o recebeu com "bondade e caridade" e elogiou bastante sua resolução e seus projetos. Entretanto, prudente e discreto, interrogou-o sobre muitos pontos e tentou persuadi-lo a passar para a vida monástica ou eremítica. Mas São Francisco recusou com humildade e quanto lhe foi possível esse conselho, sem desprezar os argumentos, mas por estar piedosamente convencido de que era conduzido por um desejo mais elevado. Admirava-se o prelado com seu fervor, e temendo que fraquejasse em tão altos propósitos, mostrava-lhe caminhos mais fáceis. Afinal, vencido por sua constância, anuiu a seus rogos e procurou apoiar sua causa diante do Papa”.
[21] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.13. Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus irmãos e lhes disse: "Ide com Deus, irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais coisas do que agora e, com maior segurança, vos confiarei encargos maiores".
[22] Madre Basiléia Schlink. Os Irmãos Franciscanos de Canaã. In http://www.canaan.org.br/irmandade_irmaos.htm
[23] Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.4, C.7.

domingo, 1 de abril de 2012

Domingo de Ramos na Vida de Clara de Assis

     
Domingo de Ramos de 1212, no dia 18 de Março. 
Nesta data Clara resolve assumir a vocação de intercessora diante de Deus. Conhece Francisco de Assis e seu ministério. Como pertencia a uma família Nobre, ele tinha naturalmente duas opções: Ou se casar com um homem rico e nobre ou ser Abadessa de um famoso mosteiro.
Clara escolhe o pior. Escolhe viver sem rumo como Francisco. Deus o leva a um ministério perpétuo de adoração e oração pela Igreja. 
Sua fuga foi justamente no Domingo de Ramos. 
A data quando a Igreja comemora a entrada de Jesus em Jerusalém para sua última semana antes de sua dolorosa morte e gloriosa ressurreição.
No dia da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, Jesus entrou definitivamente na vida de Clara. Tem coragem para enfrentar os pais, o futuro, a sociedade. Sua vocação é forte e irresistível. Seria uma mulher pobre, casada com Jesus e vivendo o carisma de Francisco no ministério da Intercessão. Foi fiel ao seu ministério até a sua morte. O seu maior milagre foi ser uma serva de Deus. 
Como evangélicos não cultuamos ou veneramos Clara. Nunca oramos para Clara, somente para a Trindade. Mas temos a alegria em ver Deus agindo em sua vida. Clara foi um exemplo de perseverança e fidelidade a oração e a pobreza. Viveu até a sua morte na Igreja de São Damião. Morre no dia 11 de Agosto de 1253. 
Clara foi uma serva do Senhor que deixou exemplo de vida consagrada.
Jesus entrou triunfalmente em seu coração.
Já vivia em santidade, mas decide, na Missa de Domingo de Ramos dar o seu SIM definitivo ao Senhor Jesus.
Louvado seja o senhor Jesus

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Quaresma: O Jejum de São Francisco de Assis e de São Romano

           Francisco foi um homem de Oração e jejum. O seu jejum era extremo ao ponto de sofrer por falta de alimento. Certa vez chegou a fazer uma Quaresma inteira de Jejum. Tinha no Jejum uma fonte de vida espiritual. Buscava no jejum uma intimidade com o Senhor.
          Muitos anos antes de Francisco, São Romano Melodista (? – c. 560), compositor de hinos, escreveu um belo texto sobre o jejum:

          "Entrega-te, minha alma, ao arrependimento; une-te a Cristo pela razão e, gemendo, grita: Concede-me o perdão das minhas faltas, para que de Ti receba, Tu só que és bom (Mc 10,18), a absolvição e a vida eterna. [...]  
          Moisés e Elias, essas torres de fogo, foram grandes nas suas obras. [...] Foram os primeiros de entre os profetas a falar livremente a Deus e a comprazer-se em d'Ele se aproximar para Lhe rezar e falar face a face (Ex 34,6; 1Rs 19,13), facto admirável e incrível, e, apesar disso, não deixaram de recorrer ao jejum, que os unia a Deus (Ex 34,28; 1Rs 19,8). Assim, tal como as obras, o jejum conduz à vida eterna.
        Pelo jejum são os demónios afastados como pela espada, porque lhe não suportam os benefícios: o que eles adoram são a folia e a embriaguez. Por isso, ao olharem o rosto do jejum, não podem tolerá-lo e fogem para bem longe, como nos ensina o Senhor nosso Deus: «estes demónios podem ser expulsos pelo jejum e pela oração» (Mc 9,28 Vulg.). É por isso que o jejum nos traz a vida eterna. [...]
            O jejum devolve aos que o seguem a habitação paterna donde Adão foi expulso. [...] Foi o próprio Deus, o amigo dos homens (Sb 7,14 Vulg.), que confiou o homem ao jejum como a uma mãe extremosa ou a um mestre, tendo-o proibido de provar apenas duma árvore (Gn 2,17).
            Tivesse o homem observado esse jejum e viveria para sempre com os anjos. Ao rejeitá-lo, causou para si a dor e a morte, a fereza dos espinhos e das silvas, e a angústia duma vida dolorosa (Gn 3,17ss.) Ora, se o jejum se revelou proveitoso no Paraíso, quanto mais o não será neste mundo para nos proporcionar a vida eterna!"

Oração: Senhor Jesus. Desejo viver esta Quaresma voltado para o seu projeto em minha vida. O meu próximo sofrido, as minhas limitações carnais, as minhas inquietações, serão o alvo do meu jejum. Me ajude a depender unicamente da graça e utilizar o meu Jejum como meio de Graça para viver de acordo com a sua santa vontade. Senhor Jesus. Necessito unicamente de ti. salva-me e ajuda-me a viver santamente. Amém.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O Milagre de Natal na Vida de Clara de Assis



O Milagre de Natal na Vida de Clara de Assis

A Grande experiência de Clara com Deus foi em março de 1212. Na noite do domingo de Ramos, Clara di Favarone foge de casa e é recebida na Porciúncula por Francisco de Assis. Talvez em maio Clara fica alguns dias no mosteiro de São Paulo e algumas semanas no mosteiro beneditino de Panzo (perto de Assis) e por fim recolhe-se a São Damião, onde fica até a sua morte, em 1253.
Clara viveu uma vida de discipulado, oração e jejum. Foi um exemplo de discípula dedicada ao Ministério da Oração e Intercessão.
Certa vez Clara estava gravemente enferma. Por causa de sua enfermidade, não pode ir a igreja com as suas irmãs em Cristo.
Estava chegando o grande dia da solenidade do Natal de Cristo. Todas as irmãs foram ao Culto da madrugada (Matinas);
Clara ficou sozinha no leito, triste por não poder ir ao Culto de Natal que simbolizava para ela uma consolação espiritual.
O Senhor Jesus Cristo não querendo deixá-la assim desconsolada, fê-la miraculosamente transportar à igreja e assistir a todo o ofício e o à missa da meia-noite; e além disto, receber a santa ceia e depois ser trazida ao leito. Foi um acontecimento espiritual.
Voltando as irmãs para junto de Clara, acabado o oficio na Igreja, disseram-lhe: "Ó nossa mãe, Clara, que grande consolação tivemos nesta noite de santa Natividade! Prouvesse a Deus que houvésseis estado conosco!"
Clara respondeu: "Graças e louvores rendo ao meu Senhor Cristo bendito, irmãs minhas e filhas caríssimas; porque a todas as solenidades desta santíssima noite e maiores do que as que assististes, assisti eu com muita consolação de minha alma; porque, estive presente na igreja; e com os meus ouvidos corporais e mentais ouvi o canto e o som dos órgãos que aí tocaram; e lá mesmo recebi a santa comunhão. E por tanta graça a mim concedida rejubilai-vos e agradecei a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Clara participou do Culto de Natal na Igreja, mesmo não podendo estar presente por causa das enfermidades.
É assim que Deus opera na vida da pessoa que crê em Jesus Cristo. Nada pode limitar nossa caminhada na fé, mesmo as maiores lutas e enfermidade.

Oração:
Senhor Jesus. Nesta santa noite de Natal desejamos reafirmar nossa fé perseverante no Senhor. Em ti transpomos barreiras e obstáculos. Com o Senhor conseguimos caminhar mesmo estando em lutas e aflições. O Senhor nasceu. Por causa do Seu nascimento, vida, morte e ressurreição, temos o perdão dos pecados e a vida eterna. Louvado seja o Pai, Filho e espírito Santo. Amém

Rev. Edson Cortasio Sardinha

Fonte Biográfica: OS FIORETTI DE S. FRANCISCO DE ASSIS: Capítulo 35. Como, estando enferma, S. Clara foi miraculosamente transportada, na noite de Natal, à igreja de S. Francisco e aí assistiu ao ofício

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dia de Francisco de Assis – 04 de outubro



Quase moribundo, Francisco compôs o Cântico das Criaturas. Até o fim da vida deseja ver o mundo inteiro louvando ao Senhor. Seu interesse não era a ecologia, mas o Deus criador do céu e da terra. Seu relacionamento com a vida estava baseado no seu relacionamento com Jesus.
No outono de 1225, enfraquecido pelas enfermidades, se retirou para São Damião. Quase cego e sozinho numa cabana de palha, em estado febril e atormentado pelos ratos, deixou para todos nós este cântico de amor ao Pai. A penúltima estrofe que exalta o perdão e a paz, foi composto em julho de 1226, no palácio episcopal de Assis, para por fim a uma desavença entre o bispo e o prefeito da cidade. Estes poucos versos bastaram para impedir a guerra civil. A última estrofe, que acolhe a morte, foi composta no começo de outubro de 1226, dias antes de sua morte. O Cântico das Criaturas e a Oração da Cruz são os únicos escritos de Francisco em Italiano antigo.
Francisco deixa esta vida. Entra na vida eterna e nos presenteia com um lindo louvor a Deus. O Deus de todas as criaturas.

Cântico de Frei Sol ou Louvor das Criaturas


1 Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória, a honra e toda bênção (cfr. Ap 4,9.11). 
2 Só a ti, Altíssimo, são devidos; E homem algum é digno de te mencionar. 
3 Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas (cfr. Tb 8,7), especialmente o senhor Frei Sol, que é dia e nos iluminas por ele. 
4 E ele é belo e radiante com grande esplendor; de ti, Altíssimo, carrega a significação. 
5 Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Lua e as Estrelas (cfr. Sl 148,3), no céu as formaste claritas e preciosas e belas. 
6 Louvado sejas, meu Senhor pelo Frei Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo (cfr. Dn 3,64-65), pelo qual às tuas criaturas dás sustento. 
7 Louvado sejas, meu Senhor pela Irmã Água (cfr. Sl 148, 4-5), que é muito útil e humilde e preciosa e casta. 
8 Louvado sejas, meu Senhor, pelo Frei Fogo (cfr. Dn 3, 63) pelo qual iluminas a noite (cfr. Sl 77,14), e ele é belo e alegre e vigoroso e forte. 
9 Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a mãe Terra (cfr. Dn 3,74), que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas (cfr. Sl 103,13-14). 
10 Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor (cfr. Mt 6,12), e suportam enfermidades e tribulações. 
11 Bem-aventurados os que as suportam em paz (cfr. Mt 5,10), que por ti, Altíssimo, serão coroados. 
12 Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Morte corporal, da qual nenhum homem vivo pode escapar. 
13 Ai dos que morrerem em pecados mortais! Felizes os que ela achar conformes à vossa santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal! (cfr. Ap 2,11; 20,6) 
14 Louvai e bendizei a meu Senhor (cfr. Dn 3,85), e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade. 

Assim relata Frei Nilo os últimos momentos de Francisco de Assis e sua relação com a morte  (Sermão proferido por Frei Nilo Agostini, na Festa de São Francisco de Assis, 04/10/1991).

Todo debilidato, com voz fraca, sumida, entoa Francisco o Salmo 142: Você mea ad Dominum clamavi (“Com minha voz clamei ao Senhor...”). O Salmo vai sendo entoado pouco a pouco, e ao chegar ao versículo Educ de custodia animam meam (“Arranca do cárcere minha alma, pra que vá cantar teu nome, pois me esperam os justos e tu me darás o galardão”). Faz-se grande e profundo silêncio. Acabara de morrer, cantando, Francisco de Assis.
Quem é este que transfigura o trauma da morte em expressão de liberdade tão suprema? Desaparece o sinistro da morte. E Francisco vai ao seu encontro como quem vai abraçar e saudar uma irmã muito querida.
Ano de 1226. Francisco se acha muito debilitado. Seu estômago não aceita mais alimento algum. Chega a vomitar sangue. Admiram-se todos como um corpo tão enfraquecido, já tão morto, ainda não tenha desfalecido. Transportado de Sena para Assis, Francisco ainda encontra forças para exortar os que acorrem a ele. E aos irmãos diz: “Meus irmãos, comecemos a servir ao Senhor, porque até agora bem pouco fizemos”. Ao chegar a Assis, um médico se apresenta e constata que nada mais resta a fazer. Ao que Francisco exclama: “Bem-vinda sejas, irmã minha, a morte!” E convida aos irmãos Ângelo e Leão para cantarem o Cântico do Irmão Sol, ao qual Francisco Acrescenta a última estrofe em louvor a Deus pela morte corporal.
Cria-se uma atmosfera tão jovial e alegre que o Ministro Geral da Ordem, Frei Elias, interpela Francisco para que pare com toda aquela atmosfera, vista como “cantoria”, para que enfim ele morra “convenientemente”, pois poderia escandalizar os moradores de Assis. “Com tudo o que sofro, me sinto tão perto de Deus que não posso senão cantar!” – respondeu-lhe Francisco.
Aproximando-se a hora derradeira, Francisco deseja ser levado para a capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, na Porciúncula, onde tudo havia começado. Lá, num gesto de despojamento, de identificação com o Cristo crucificado e de integração com o Pai, pede que o deixem, nu, sobre a terra e diz aos frades: “Fiz o que tinha que fazer. Que Cristo vos ensine o que cabe a vós”. Despede-se de todos os irmãos; abençoa-os; lembra-lhes que “o Santo Evangelho é mais importante que todas as demais instituições”. Ainda deseja que Irmã Jacoba lhe traga alguns daqueles deliciosos biscoitos. Anima o seu médico, dizendo-lhe: Irmão médico, dize com coragem que a minha morte está próxima. Para mim, ela é a porta para a vida!” E, então, canta o Salmo 142. Francisco parte cantando, cortês, hospitaleiro e reconciliado com a morte.
O canto de Francisco está baseado em uma percepção realista da morte: “Nenhum homem pode escapar da morte”. Mas como pode ser irmã aquela que engole a vida, que decepa aquela pulsão arraigada em cada um de nós, fundada em um “desejo” que busca triunfar sobre a morte e viver eternamente? Francisco acolhe fraternalmente a morte. Nele realiza-se, de forma maravilhosa, o encontro entre a vida e a morte, em um processo de integração da morte.
Francisco acolhe a vida assim como ela é, ou seja, em sua exigência de eternidade e em sua mortalidade. Tanto a vida como a morte são um processo que perdura ao longo de toda a vida. A morte faz parte da vida. Como e despertar e o adormecer, assim é a morte para o ser humano. Ela não rouba a vida; dá a esse tipo de vida a possibilidade de outro tipo de vida, eterna e imortal, em Deus.
A morte não é então negação total da vida, não é nossa inimiga, mas é passagem para o modo de vida em Deus, novo e definitivo, imortal e pleno. Francisco capta esta realidade e abriga a morte dentro da vida. Acolhe toda limitação e mostra-se tolerante com a pequenez humana, a sua e a dos outros.
A grandeza espiritual e religiosa de Francisco no saudar e cantar a morte significa que já está para além da própria morte; ela, digna hóspede não lhe é problema; ao contrário, ela é a condição de viver eternamente, de triunfar de modo absoluto, de vencer todo embotamento do pecado que a transforma em tragédia. Francisco soube mergulhar na fonte de toda a vida. “Enquanto Deus é Deus, enquanto Ele é o vivente e a Fonte de toda a vida, eu não morrerei, ainda que corporalmente morra!” (L. Boff).
Morte, drama sagrado,
não uma tragédia.
Morte, bem-vinda,
não uma inimiga.
Morte, uma irmã,
não uma ladra.
Morte, abertura para a plena liberdade,
presença do Reino de Deus, utopia do justos.
“Deus enxugará as lágrimas dos seus olhos, e a morte não existirá mais,
nem haverá mais luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou” (Ap 21,4).

“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum vivente pode escapar” (São Francisco, Cântico do Irmão Sol).      
Sermão proferido por Frei Nilo Agostini, na Festa de São Francisco de Assis, 04/10/1991


segunda-feira, 29 de agosto de 2011


A Igreja de São Damião e o Ministério das Clarissas
 

A primeira obra que Francisco empreendeu depois que se livrou de seu pai, foi edificar uma casa para Deus. Mas não tentou construí-la desde o começo, mas consertou uma pequena igreja que já existia.
Voltou pois ao lugar em que fora construída antigamente uma igreja de São Damião. Com a graça do Altíssimo, reparou-a cuidadosamente em pouco tempo.
Foi esse o lugar feliz e abençoado em que teve auspicioso início a Ordem das Senhoras Pobres e santas virgens, quase seis anos depois da conversão de Francisco e por seu intermédio.
Nela estabeleceu-se Clara, natural de Assis. Pois já tinha começado a existir a Ordem dos Frades quando Clara foi convertida para Deus pelos conselhos de Francisco, servindo assim de estímulo e modelo para muitas outras.
Foi nobre de nascimento e muito mais pela graça; virgem no corpo e puríssima no coração; jovem em idade, mas amadurecida no espírito.
Foi firme na decisão e ardente no amor de Deus.
As irmãs que ali viveram possuíam a virtude da mútua e constante caridade, unindo a tal ponto suas vontades que, vivendo em número de quarenta ou cinqüenta em um mesmo lugar, eram unidas no espírito.
Era uma Ordem de mulheres consagradas ao Senhor Jesus. Servas e devotas de Cristo. Mulheres que tiveram uma experiência pessoal com Cristo e se dedicaram ao Ministério de Intercessão.
Enquanto Francisco e seus discípulos evangelizavam o mundo, estas mulheres intercediam a Deus e sustentavam a missão pelo jejum, vigílias e orações. Por isso a obra de Deus avançou salvando milhares de vidas. “Missões é sustentado pela Oração!”

Oração: Senhor Jesus. Em ti somos Salvos e libertos. O Senhor é o nosso único Senhor e Salvador. A tua graça nos transforma. Assim como o Senhor usou Clara e suas discípulas no ministério da oração, use minha vida na tua seara. Levante intercessores que vivam para a missão de ser luz e sal da terra. Assim como Francisco construiu a igreja de São Damião, que eu seja um instrumento do Senhor para auxiliar no avanço de sua obra espalhando a santidade bíblica por toda a terra. Levante hoje “Claras” e “Franciscos”, pessoas apaixonadas pelo teu Evangelho, convertidas a Jesus Cristo e ardentes pela Missão do Senhor. Em Nome de Jesus. Amém!

Rev. Edson Cortasio Sardinha – ordemevangelica@hotmail.com
Baseado na primeira Biografia de Francisco – Tomás de Celano – Primeira Vida. – Capítulo 8.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Protestantes que redescobrem Francisco

Sou evangélico. Prefiro o nome protestante. Pertenço a uma igreja histórica com identidade missionária. Sou metodista. Uma denominação dentro do carisma de avivamento e santidade do século XVIII. O nosso carisma vem de Cristo em sua ação de graça sobre a Vida dos irmãos Wesley. Nossa Igreja é a de JESUS. Em sua igreja Deus tem levantado várias flores no seu jardim. São carismas diferentes em uma só igreja.
Leio Bento de Núscia como um carisma missionário de oração pelo viés monástico. Leio Lutero e outros homens e mulheres como agentes do carisma de Deus.
Deus levanta seus obreiros e obreiras dos diversos ramos e tradições: Católicos, Protestantes e Ortodoxos.
É desta forma que vejo São Francisco de Assis e o movimento franciscano. Vejo-o como um carisma de Deus para a igreja. Francisco foi um agente do carisma de Deus para a Igreja Universal.
Acolho Francisco como acolho o apóstolo Paulo. Paulo não pertence só a Igreja católica apostólica romana. Ele pertence ao cristianismo. A igreja de Deus é Una, Santa, Apostólica e Universal (católica). Ela não é protestante, Romana ou ortodoxa. A Igreja é de Cristo, viva e apostólica.
Por que precisamos voltar a ler Francisco?
Francisco nos ajuda a enxergar vários desafios:

A importância do ministério leigo;
A vida coerente com o Evangelho de Cristo;
A relação evangélica com o dinheiro e com os bens do mundo;
A vida de oração;
A visão de discipulado e células;
A importância da Bíblia nas decisões humanas;
A obediência a voz de Deus;
O avanço missionário;
A relação com o Criador e sua obra criada;
A paixão de Cristo na devocional da vida;
A relação com o outro, com o mundo e com a vida;
A valorização litúrgica do mistério de Cristo;
O tempo de retiro e reconstrução pessoal.

Estes e muitos outros desafios são apresentados pelo carisma de Deus na Vida de Francisco.  Por este motivo, é saudável, justo e aconselhável que o protestante redescubra Francisco e sua fala profética.
A descoberta histórica de Francisco é uma bênção para a igreja. Devemos ler e conhecer o agir de Deus na vida deste homem de Deus. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Francisco e os Leprosos: caminho da Conversão

Francisco, os Ladrões e os Leprosos[1].


Quando deixou a herança de seu pai, Francisco passou a andar com uma roupa pobre e velha. Andava cantando louvores a Deus em francês. Certa vez estava passando por um bosque louvando ao Senhor e foi atacado por ladrões.
Os ladrões perguntaram-lhe brutalmente quem era, e ele respondeu forte e confiante: “Sou um arauto do grande Rei! Que é que vocês têm com isso?” 
Os ladrões, vendo que era pobre, bateram nele e o jogaram numa fossa cheia de neve, dizendo: “Fica aí, pobre arauto de Deus”.
Quando se afastaram, revirou-se na fossa e conseguiu sair, sacudindo a neve. Com alegria redobrada, começou a cantar em voz alta pelos bosques os louvores do Criador de tudo.
Chegando a um mosteiro, passou muitos dias na cozinha como servente, vestido apenas com uma túnica velha e vil. Quisera saciar-se com um pouco de caldo. Mas ninguém teve pena dele e não conseguiu sequer alguma roupa velha. Foi, na realidade, maltratado pelo mosteiro.
Saiu do mosteiro por causa da necessidade e foi para a cidade de Gúbio, onde conseguiu uma túnica com um de seus velhos amigos.
Algum tempo depois, quando sua fama de homem de Deus cresceu, o prior daquele mosteiro, recordando e compreendendo o que fora feito contra ele, procurou-o e pediu-lhe perdão por amor de Deus em seu nome e no dos monges.
Depois disso, transferiu-se para um leprosário.
Vivia com os leprosos, servindo com a maior diligência a todos por amor de Deus. Lavava-lhes qualquer podridão dos corpos e limpava até o pus de suas chagas. Sobre isso escreveu: “Como estivesse ainda em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos, mas o Senhor me conduziu para o meio deles e eu tive misericórdia com eles”.
Antes, ver os leprosos era tão insuportável que, em suas próprias palavras, tapava o nariz só de ver suas cabanas a duas milhas de distância.
Mas, um dia, quando, por graça e força de Deus, já sendo trabalhado pelo Senhor, encontrou-se com um leproso e, superando-se, chegou e o beijou.
A partir de então, foi ficando cada dia mais humilde e simples.
Tinha um carinho pelos pobres e os ajudava com muita misericórdia. Mesmo antes de ser totalmente transformado pelo Senhor. Sua vida foi uma conversão progressiva.
Houve um dia em que, contra seu costume, porque era muito bem educado, tratou mal um pobre que lhe pedia esmola. Mas logo, arrependido, começou a dizer consigo mesmo que era grande ofensa e vergonha negar a quem estivesse pedindo no nome de tão grande Rei, o que quisesse. 
Resolveu que jamais negaria a quem lhe pedisse em nome de Deus o que estivesse ao seu alcance. Desejou seguir as palavras de Jesus: “Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te pedir emprestado” (Mt 5,42).
O segredo de Francisco foi sua conversão ao Senhor Jesus e ao Evangelho. Leu a Palavra de Deus e passou a crer e a viver o Evangelho. Foi um crente fiel ao Evangelho do Senhor.
Seu segredo foi aceitar Jesus como Senhor e Salvador. Jesus o transformou pela graça.

Oração:Senhor Jesus! Entra na minha vida. Assim como o Senhor transformou Francisco num homem de Deus, transforme minha vida. Desejo ser o que o Senhor deseja que eu seja. Mude a minha vida e salve o meu coração. Eu necessito de Jesus Cristo. Jesus entra na minha vida e opere em meu ser hoje e para sempre”.  


Rev. Edson Cortasio Sardinha - edsoncortasio@hotmail.com


[1] Tomás de Celano – Vida I - Capítulo 7 - Como, preso por ladrões, foi jogado na neve, e como serviu os leprosos.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Francisco renuncia a sua Herança terrena Tinha recebido uma Herança eterna



Francisco vende os tecidos do Pai [1]
Francisco, já convertido pelo Espírito Santo, tendo preparado um cavalo, montou e, levando consigo os tecidos de seu pai para vender (seu pai Pedro Bernadone era um grande comerciante de tecidos de Assis), partiu veloz para Foligno.
Tendo lá vendido como de costume tudo que levara, o feliz mercador deixou até o cavalo que montara, depois de receber o preço que valia. De volta, livre da carga, vinha pensando no que fazer com o dinheiro.
Admirável e repentinamente todo convertido para as coisas de Deus, achou que era pesado demais carregar aquela soma por uma hora que fosse. Considerando simples areia todo aquele pagamento, apressou-se em se desfazer dela.
Vindo na direção de Assis, encontrou à beira do caminho uma igreja erguida havia muito tempo, a Igreja de São Damião, que estava em ruína por sua muita antiguidade. 
Chegando a ela, entrou na igreja e encontrou lá um sacerdote pobre, beijou suas mãos cheio de fé, deu-lhe o dinheiro que levava e contou direitinho o que queria.
Espantado, e admirando tão incrível e repentina conversão, o padre não quis acreditar.
Achando que estava sendo enganado, não aceitou o dinheiro oferecido. Mas o jovem insistia teimosamente, e com palavras ardentes procurava convencer o sacerdote que, pelo amor de Deus, lhe permitisse viver em sua companhia.
Afinal o padre concordou em que ficasse, mas, por medo de seus pais, não recebeu o dinheiro, que Francisco, jogou a uma janela, tratando-o como se fosse pó.

Perseguido pelo pai[2]
Seu pai sentiu sua falta e a falta dos tecidos e começou a procura-lo. Quando entendeu como ele estava vivendo naquele local, teve o coração ferido de íntima dor, e ficou muito perturbado com a súbita mudança.
Convocou amigos e vizinhos e correu o mais depressa que pôde para onde morava o servo de Deus.
Francisco, sabendo das ameaças dos que o perseguiam e pressentindo sua chegada, não quis dar oportunidade à raiva e se meteu numa cova secreta que tinha preparado para isso.
Esteve um mês nesse esconderijo, que ficava na casa e talvez só fosse conhecido por um amigo, mal ousando sair para as necessidades.
Comia algum alimento, quando o recebia, no fundo da cova. Todo auxílio lhe era levado em segredo.
Banhado em lágrimas, orava continuamente para que Deus o livrasse da mão dos que o perseguiam e, por um favor benigno, lhe permitisse cumprir seus piedosos propósitos.
Jejuando e chorando, implorava a clemência do Salvador e, desconfiando da própria capacidade, punha em Deus todo o seu pensamento.
Mesmo dentro do buraco e na escuridão, gozava de uma alegria indizível, que nunca tinha experimentado. Cheio de ardor, saiu do esconderijo e se apresentou às injúrias dos que o perseguiam. 
Levantou-se sem vacilar, com alegria e presteza. As pessoas passaram a insultá-lo miseravelmente, chamando-o de louco e demente, e lhe atiraram pedras e lama das praças.
Viam-no completamente transformado em seus hábitos anteriores e muito acabado pela mortificação, e atribuíam seu comportamento à fraqueza e à loucura.
Diante disse Francisco dava graças a Deus.
Mas o tumulto pelas praças e ruas da cidade durou tanto, ouvindo-se em toda parte o clamor dos que o insultavam, que, entre os muitos a cujos ouvidos chegou, estava também seu pai. 
Ouvindo o nome do filho, e que estava sendo comprometido nesse tipo de conversa por seus concidadãos, levantou-se imediatamente, não para libertá-lo mas para perdê-lo.
Seu pai o arrastou com modos indignos e afrontosos para casa. 
Sem qualquer compaixão, prendeu-o por muitos dias em um lugar escuro e, querendo dobrá-lo para seu modo de ver, agiu primeiro com palavras e depois com chicotadas e algemas.
Com isso tudo, o próprio Francisco ficou ainda mais pronto e decidido a seguir seu santo propósito, e sem se convencer com as palavras, nem se cansar da cadeia, não perdeu a paciência.

É solto pela mãe[3]
Aconteceu que seu pai precisou ausentar-se, pela urgência dos negócios, por algum tempo, deixando o homem de Deus preso no calabouço. A mãe, que ficou sozinha com ele em casa, e não aprovava o procedimento do marido, dirigiu-se ao filho com palavras ternas.
Mas, vendo que não conseguia fazê-lo mudar de opinião, sentiu seu coração materno se enternecer e, soltando as correntes, deixou-o sair.
Ele deu graças a Deus e voltou depressa para o lugar onde estivera antes. Provado pelas tentações, gozava agora de maior liberdade e, depois de tantas lutas, adquirira um ânimo mais sereno.
As dificuldades lhe deram maior segurança, e começou a andar mais confiante e livre por toda parte. Nesse meio tempo, o pai estava de volta. Não o tendo encontrado, acumulando seus desatinos, armou uma gritaria com sua mulher. 
Depois, irado e ameaçador, correu em busca do filho, decidido a expulsá-lo da região, se não conseguisse traze-lo de volta. 
Vendo que não poderia afastá-lo do caminho em que se metera, o pai cuidou apenas de reaver o dinheiro.
O homem de Deus teria querido gastá-lo e oferecê-lo todo para o sustento dos pobres e na construção daquele lugar mas, como não lhe tinha amor, não podia sofrer decepção alguma, nem se perturbou com a perda de um bem a que não tinha apego. 
Quando achou o dinheiro que ele, desprezador por excelência dos bens terrenos, ávido demais das riquezas celestes, tinha jogado a uma janela como lixo, acalmou-se um bocado o furor do pai irado. A recuperação foi como um refrigério para sua sede de avareza. 
Mais tarde, apresentou-o ao bispo da cidade, para que, renunciando em suas mãos à herança, devolvesse tudo que tinha. Ele não se recusou. Até se apressou alegremente a fazer o que pediam. 

Diante do bispo, não se demorou e nada o deteve: sem dizer nem esperar palavra, despiu e jogou suas roupas, devolvendo-as ao pai. 
Não guardou nem as calças: ficou completamente nu diante de todos.
O bispo, compreendendo sua atitude e admirando muito seu fervor e constância, levantou-se prontamente e o acolheu em seus braços, envolvendo-o no manto. 
Compreendeu claramente que era uma disposição divina e percebeu que os gestos do homem de Deus, que estava presenciando, encerravam algum mistério.
Tornou-se, desde então, seu protetor, animando-o, confortando-o e abraçando-o nas entranhas da caridade. 
Foi assim que Francisco tratou de desprezar a própria vida, deixando de lado toda solicitude mundana, para encontrar como um pobre a paz no caminho que lhe fora aberto: só a parede da carne separava-o ainda da visão celeste. 

Texto parafraseado por Edson Cortasio Sardinha, da primeira Biografia de Francisco de Assis - I Celano. 



[1] Capítulo 4 - Como, tendo vendido tudo, desprezou o dinheiro recebido. Tomás de Celano. Primeira Vida.
[2] Capítulo 5 - Como seu pai, perseguindo-o, o prendeu - Tomás de Celano. Primeira Vida.
[3] Capítulo 6 - Como sua mãe o soltou e como se despiu diante do bispo de Assis 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Antônio de Pádua: Um Servo Fiel do século XIII


Antônio de Pádua e de Lisboa, era Franciscano. Nasceu em Lisboa, Portugal, 15 de Agosto de 1191-1195 ? e faleceu em Pádua, Itália 13 de Junho de 1231.
Seu nome de batismo era  Fernando de Bulhões. Primeiramente foi frade agostiniano, tendo ingressado como noviço (1210) no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa, Portugal, tendo posteriormente ido para o Convento de Santa Cruz, em Coimbra, onde fez seus estudos de Direito.
Por motivos de necessidade de Encontro com Deus, devido diversas lutas internas e crises espirituais, encontrou a graça de Deus no movimento Franciscano.
Tornou-se franciscano em 1220, conheceu Francisco de Assis pessoalmente e viajou muito, vivendo inicialmente em Portugal, depois na Itália e na França.
No ano de 1221 passou a fazer parte do Capítulo Geral da Ordem de Assis, a convite do próprio Francisco de Assis.
Foi o primeiro professor de Teologia da Ordem Franciscana e grande pregador. Deus o usou como Evangelista. Era apaixonado pelo Senhor Jesus. Era um crente em Jesus que amava a igreja e a missão do Senhor.
Foi fiel a Deus e pregou contra as heresias de sua época. Foi transferido depois para Bolonha e de seguida para Pádua, onde morreu aos 36 (ou 40) anos. Deixou muitos escritos

Cronologia:
1191/1195 - Fernando Bulhões nasceu em Lisboa (data oficial: 15 de Agosto de 1195).
1210/11 - Ingressou, como noviço, na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora.
1213/14 - Ingressou no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra.
1220 - Trocou o hábito de agostinho pelo de frade franciscano, recolhendo-se ao Convento dos Olivais, onde adotou o nome de Frei António.
1221 - Embarcou para o Norte de África. Gravemente enfermo, retornou a Portugal. Durante a viagem de regresso, uma forte tempestade empurrou a embarcação que o transportava para a Sicília.
1222 - Assistiu ao Capítulo Geral da Ordem, em Assis, onde conheceu Francisco de Assis. Foi nomeado pregador da Ordem.
1223 - Ensinou Teologia aos frades menores.
1225 - Partiu para o Sul de França para combater a heresia Albigense. Ensinou Teologia em Montpellier e em Toulouse; pregou em Puy e em Limonges.
1227 - Após a morte de Francisco de Assis regressou à Itália para assistir ao Capítulo da Ordem, em Assis. Foi nomeado Provincial da Itália Setentrional.
1228 - Na Basílica de São João de Latrão, em Roma, pregou diante do Papa Gregório IX.
1229 - Concluiu em Pádua a redação dos "Sermões Dominicais".
1230 - Iniciou a redação dos "Sermões Festivos".
1231 - Dirigiu-se a Pádua para acabar os seus dias. No caminho, em Arcella, faleceu a 13 de Junho, com 36 a 40 anos de idade.

            Antônio foi um servo de Deus que fez diferença em sua geração. Louvado seja o Senhor pelo seu testemunho e vida com Deus.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Caminho da Conversão de Francisco de Assis

         Quando Francisco de Assis ainda vivia no pecado da mocidade, sofreu uma terrível doença.
            Prostrado por longa enfermidade, começou a refletir consigo mesmo de maneira diferente.
Já um pouco melhor, e apoiado em um bastão, começou a andar pela casa para recuperar as forças.
Certo dia, saiu à rua e começou a observar com curiosidade a região que o cercava. Mas nem a beleza dos campos, nem o encanto das vinhedos, nem coisa alguma agradável de se ver conseguia satisfazê-lo.
Ficou surpreso com sua mudança repentina e começou a julgar estultos os que amavam essas coisas.
Desde esse dia, começou a ter-se em menos conta e a desprezar as coisas que antes tinha admirado e amado.
Francisco aos poucos voltou ao normal e ainda tentou fugir da mão de Deus e, quase esquecido da correção paterna, diante de uma oportunidade, pensou nas coisas que são do mundo e ignorou o conselho de Deus, prometendo a si mesmo o máximo da glória mundana e da vaidade.

Um homem nobre de Assis não mediu despesas para se armar militarmente e, inchado pela glória vã, decidiu marchar para a Apúlia para ganhar mais dinheiro e honra. Sabendo disso, Francisco, que era leviano e não pouco audaz, alistou-se para ir com ele, porque era menos nobre, mas de ambição maior.
Todo entregue a esse plano e pensando com ardor na partida, certa noite, aquele que o tinha tocado com a vara da justiça visitou-o numa visão noturna, com a doçura da sua graça. E o seduziu e exaltou por causa da glória, porque ele tinha sede de glória.
Pareceu-lhe ver a casa toda cheia de armas: selas, escudos, lanças e outros aparatos. Muito alegre, admirava-se em silêncio, pensando no que seria aquilo. Não estava acostumado a ver essas coisas em sua casa, mas apenas pilhas de fazendas para vender.
E ainda estava aturdido com o acontecimento repentino, quando lhe foi dito que aquelas armas seriam suas e de seus soldados. 
Despertando de manhã, levantou-se alegre e, julgando a visão um presságio de grande prosperidade, ficou certo de que sua excursão à Apúlia seria um êxito. Pois não sabia o que dizer e ainda não entendera nada do dom que lhe fora feito pelo céu.
Começou a buscar o Senhor e desejar ser santo.
Certo dia, tendo invocado mais plenamente a misericórdia divina, o Senhor lhe mostrou o que tinha que fazer. Ficou tão cheio de alegria, que não cabia mais em si e, mesmo sem querer, deixou escapar alguma coisa aos ouvidos dos outros. Mas embora não pudesse calar-se por ser tão grande o amor que lhe fora inspirado, era com cautela que comunicava alguma coisa, e falando em parábolas. 
Dizia que não queria ir para a Apúlia, mas prometia que haveria de fazer coisas nobres e estupendas em sua própria terra. 
Os outros acharam que ele ia se casar e perguntaram: “Você vai se casar, Francisco?” 
Respondeu-lhes: “Vou me casar com uma noiva nobre e bonita como vocês nunca viram, que ganha das outras em beleza e supera a todas em sabedoria”.
De fato, a esposa imaculada do Senhor era a verdadeira religião, que ele abraçara, e o tesouro escondido era o reino dos céus, que buscou com tanto entusiasmo. 
Pois era necessário que se cumprisse plenamente a vocação evangélica naquele que haveria de ser ministro fiel e autêntico do Evangelho. 

Edson e Marisa Sardinha. Baseado em Tomás de Celano, PRIMEIRA VIDA (1CEL), Capítulo 1 e 2.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Vida de Francisco antes da Conversão.

       Faremos uma breve introdução de cada parte da Biografia de Tomás de Celano (nasceu em 1200 d.C.) Tomás de Celano foi discípulo de Francisco e o autor da primeira biografia oficial do irmão de Assis. É interessante estudar nas primeiras fontes biográficas de Francisco e descobrir o homem de Deus levantando para influenciar toda uma geração. O segredo de Francisco foi sua verdadeira conversão a Jesus Cristo. Jesus é o caminho, a verdade e a Vida. Louvado seja o Senhor Jesus.
         Iremos iniciar com a vida de Francisco antes de sua conversão.

Vida Mundana de Francisco
Francisco vivia em Assis e teve uma criação mundana e arrogante: ”Desde os primeiros anos foi criado pelos pais com arrogância, ao sabor das vaidades do mundo. Imitou-lhes por muito tempo a via mesquinha e os costumes e tornou-se ainda mais arrogante e vaidoso”. 

Na época de Francisco os cristãos tinham atitudes pecaminosas e mundanas. Era comum ver cristãos envolvidos em pecados e luxúria: 2 Esse péssimo costume difundiu-se por toda parte, entre os que se dizem cristãos, como se fosse lei pública, tão confirmada e preceituada em toda parte que procuram educar seus filhos desde o berço com muito relaxamento e dissolução”. 

            Francisco foi educado no pecado: Nesses tristes princípios foi educado desde a infância... Neles perdeu e consumiu miseravelmente o seu tempo quase até os vinte e cinco anos”.

Francisco era um dos piores jovens de sua época. Era o líder mundano de seus amigos de Assis: “Pior ainda: superou desgraçadamente os jovens da sua idade nas frivolidades e se apresentava mais generosamente como um incitador para o mal e um rival em loucuras”.

Ele era um mau exemplo para todos os jovens. “Todos o admiravam e ele procurava sobrepujar aos outros no fausto da vanglória, nos jogos, nos passatempos, nas risadas e nas conversas fúteis, nas canções e nas roupas delicadas e luxuosas”.

Francisco também não sabia lidar com o dinheiro de seu pai. “Na verdade, era muito rico, mas não avarento, antes pródigo; não ávido de dinheiro, mas gastador; negociante esperto, mas esbanjador insensato”.

Pessoas de má índole se aproximavam de Francisco. “Porque era principalmente por isso que muitos o seguiam, gente que fazia o mal e incitava para o crime. Cercado por bandos de maus, adiantava-se altaneiro e magnânimo, caminhando pelas praças de Babilônia”.

Por isso a Conversão de Francisco foi verdadeiramente um milagre de Deus. Uma ação da graça do Senhor. “Até que Deus o olhou do céu. Por causa do seu nome, afastou para longe dele o seu furor e pôs-lhe um freio à boca com o seu louvor, para que não perecesse de vez”.

Francisco foi transformado pela Graça de Deus para ser um ganhador de almas. Deus o salvou e transformou num Evangelista. Homem que foi missionário em sua época e levou muitas vidas a Cristo: “Desde então esteve sobre ele a mão do Senhor e a destra do Altíssimo o transformou para que, por seu intermédio, fosse concedida aos pecadores a confiança na obtenção da graça e desse modo se tornasse um exemplo de conversão para Deus diante de todos”.