quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A Espiritualidade da Franciscana Isabel da Hungria

A Espiritualidade da Franciscana Isabel da Hungria
falecida em 17 de novembro de 1231
Jovem viúva de 20 anos, Isabel foi expulsa de seu castelo com os quatro filhos pequenos e só conseguiu alojamento num depósito, ao lado dos porcos. 
Nessa situação,  mandou cantar um Te Deum, para agradecer a 
Nosso Senhor a graça de sofrer em união com Ele.
Isabel nasceu em 1207, na Hungria. Aos 4 anos, entrava na capela do castelo, abria o grande livro dos Salmos, e ainda sem saber ler, olhava-o longamente e passava muitas horas recolhida em oração. Ao brincar com outras meninas, procurava algum jeito de encaminhá-las para a capela. Quando esta estava fechada, beijava-lhe a porta, a fechadura, as paredes, pois, dizia ela, "Deus lá dentro repousa".
Antes de completar dez anos, perdeu a mãe, a Rainha Gertrudes. Na mesma época, faleceu também seu protetor, o Duque Herman, o qual era pai de seu futuro esposo e a tratava como filha, amando-a justamente por sua piedade inocente e graciosa.
Aos 13 anos de idade, realizou-se seu casamento com o poderoso e não menos piedoso Duque Luiz da Turíngia, ao qual havia sido prometida desde tenra infância.
Isabel fazia bom uso da imensa riqueza de seu esposo, distribuindo aos pobres generosas esmolas. Isto causava profunda irritação a muitas pessoas da corte, sobretudo aos seus dois cunhados, Henrique e Conrado. Acusando-a de estar "dilapidando o patrimônio familiar", estes não perdiam oportunidade de tentar fazer-lhe mal.
E ela, por sua vez, não se contentava em simplesmente dar moedas ou alimentos. Seu amor a Deus a impelia a ações muito mais generosas.
No ano de 1226, estando seu esposo na Itália com o Imperador Frederico II, uma terrível fome assolou toda a Alemanha, sobretudo a Turíngia. Pelas matas e campos, andavam multidões de infelizes à procura de raízes e frutas para se alimentarem. Bois, cavalos e outros animais que morriam eram logo devorados pelos homens famintos. Em breve a morte começou sua ceifa. Pelos campos e estradas, amontoavam- se os cadáveres.
Nessa terrível situação, a única ocupação de Isabel, dia e noite, era socorrer os infelizes. Transformou seu castelo na "morada da caridade sem limites", como escreve um de seus biógrafos. Distribuiu aos indigentes todo o dinheiro do tesouro Ducal. Vencendo a oposição de alguns administradores egoístas, mandou abrir os celeiros do castelo, e ela mesma dirigiu a distribuição de tudo, sem nada reservar para seus próprios familiares. Com equilíbrio e bom senso, fazia dar a cada necessitado uma ração diária. Aqueles que, por fraqueza ou doença, não conseguiam subir até o castelo, eram objeto de uma solicitude especial de parte da Santa: ela descia para ir pessoalmente socorrê-los no sopé da montanha.
Fundou três hospitais para auxiliar os doentes: um para mulheres pobres, outro só para crianças, e um terceiro para todos em geral.
Onde havia um agonizante, lá estava ela, a fim de ajudá-lo a morrer bem.
Passado esse terrível período de desolação, ela reuniu os homens e mulheres em condições de trabalhar, providenciou sapatos, roupas e ferramentas para os que não tinham, e ordenou que fossem para o campo cultivar. Em breve voltaram os bons tempos de fartura e ela pôde ver com alegria o trigo encher os celeiros e o sorriso voltar aos lábios de toda aquela gente.
Em Santa Isabel, reluz muito a solicitude para com os necessitados. Mas ela era exímia na prática de todas as virtudes. Poucas pessoas levaram tão longe quanto ela o desapego aos bens desta terra e a conformação amorosa com a vontade de Deus. Esposa exemplar, unida em matrimônio com um marido modelar, a ele dedicava todo o afeto natural e legítimo de seu nobre coração. E era retribuída na mesma proporção. Muito mais do que isso, porém, unia-os o amor a Deus, o desejo de perfeição.
Nesta perspectiva, compreende-se com facilidade a dor da separação, quando o Duque da Turíngia partiu para a Cruzada, em 1227. Sofrimento incomparavelmente maior quando, pouco tempo depois, recebeu a notícia de que ele havia falecido antes mesmo de chegar à Terra Santa.
Esse era, porém, apenas o início de uma cascata de sofrimentos. Agora ela não tinha mais a proteção de seu virtuoso esposo. Disso se aproveitaram seus dois cunhados para deixarem expandir o ódio que lhe tinham. No mesmo dia a expulsaram do castelo, sob um frio muito rigoroso, com os quatro filhos pequenos, sem lhe permitir levar qualquer dinheiro, agasalho ou alimento. E num requinte de crueldade, proibiram, sob severas penalidades, que qualquer habitante da cidade lhe desse abrigo.
Após bater sem resultado em inúmeras portas, um taberneiro - condoído, porém, temeroso de represálias - acolheu-a, mas oferecendo-lhe como albergue uma espécie de cavalariça que servia também de chiqueiro! Deste modo, a Duquesa e filha de Rei viu-se reduzida a passar a noite, com os filhos, na companhia dos porcos, agasalhando- se nos utensílios de montaria para não morrer de frio.
No dia seguinte, pessoas caridosas e de caráter levaram-lhe alimentos. Uma noite e um dia passou ela nesta "pousada dos porcos", onde foi altamente recompensada por uma aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Um velho sacerdote das redondezas ofereceu-lhe alojamento, não dispondo senão de um miserável casebre. Certo dia, a santa Duquesa visitou o convento dos Frades Menores para pedir... Auxílio? Não. Pediu-lhes para cantarem um Te Deum, na intenção de agradecer ao Senhor a graça de participar nos seus sofrimentos!
Por ordem de seus cunhados, alguns esbirros arrancaram-na daquele miserável abrigo, para mantê-la aprisionada em péssimas condições nas dependências de um velho castelo.
Após alguns meses de indescritíveis sofrimentos, sua tia Matilde, abadessa de Kitzing, tomou conhecimento desses fatos e enviou mensageiros com duas viaturas para levá-la com os filhos para o seu convento.
Passado pouco tempo, seu tio Egbert, Bispo-Príncipe de Bamberg, lhe comunicou uma proposta de casamento com o Imperador Frederico II, o mais poderoso soberano da época. Mas Isabel tinha ambições muito maiores! Seu coração estava todo voltado para o Infinito, nada nesta terra podia satisfazê-lo.
Passados poucos dias, regressaram à Turíngia os cavaleiros que tinham acompanhado o Duque Luiz à Cruzada. Apresentando-se a Conrado e Henrique, censuraram-lhes corajosamente a dureza e crueldade com que haviam tratado a viúva e os filhos de seu próprio irmão. Os dois culpados não resistiram à franqueza altiva dos seus vassalos. E, chorando, pediram perdão a Isabel, restituindo-lhe todos os bens de que a haviam despojado.
Isabel mandou construir ao lado do convento dos Frades Menores uma casa modestíssima - apelidada de "palácio de abjeção" pelos parentes de seu falecido marido - na qual se instalou, com os filhos e os serviçais que lhe permaneceram fiéis.

Na Sexta-Feira Santa de 1229, fez votos na Ordem de São Francisco, e tomou o hábito das Clarissas. Tendo edificado para si apenas uma pobre morada, empregou seus recursos em construir igrejas para Deus e hospitais para os doentes pobres, dos quais ela mesma passou a cuidar dia e noite, com mais carinho e solicitude do que antes. Deus concedeu-lhe a graça de servir aos desvalidos, não somente o pão para o corpo, mas também o esplendor da sua própria luz, através dos milagres que realizava por seu intermédio.
Certo dia, encontrou um menino estropiado e disforme, estendido na soleira da porta de um hospital. Além de surdo-mudo, ele não conseguia andar senão de quatro, como um animal. A mãe deixara-o ali, na esperança de que a boa Duquesa dele se apiedasse e o acolhesse. Logo que o viu, Isabel abaixou-se para acariciar-lhe os cabelos sujos e revoltos. E perguntou-lhe:
- Onde estão teus pais? Quem te deixou aqui? Não recebendo resposta, repetiu as perguntas. Mas o pobre ente apenas a fitava com olhos arregalados. Desconfiando de alguma possessão diabólica, ela disse em alta e clara voz:
- Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu te ordeno, a ti ou a quem em ti estiver, que me respondas de onde vens!
No mesmo instante, o menino ergueu- se e - ele que não havia aprendido a falar! - explicou-lhe com desembaraço sua triste vida. Depois, caindo de joelhos, pôs-se a chorar de alegria e louvar a Deus todo-poderoso.
- Eu não conhecia Deus, nem sabia de sua existência. Todo o meu ser era morto. Não sabia nada. Bendita sejas tu, senhora, que obtiveste de Deus a graça de não morrer como até o presente vivi. A estas palavras, Isabel pôs-se também de joelhos para agradecer ao Senhor, junto com o menino, e, por fim, recomendou-lhe:
- Agora volta para teus pais e não digas nada do que te aconteceu. Diz apenas que Deus te socorreu. Guarda-te sempre do pecado para não acontecer de voltares a ser o que eras.
A notícia desse milagre correu como um rastilho de pólvora, espalhando por toda a Turíngia a fama de santidade de Isabel. Em consequência, aumentou o número dos que a ela recorriam. E Deus dignava-Se de, por sua intercessão, atender a todos.
No dia 16 de novembro de 1231, Isabel adoeceu. Após receber a unção dos enfermos e o viático, Nosso Senhor lhe apareceu e revelou-lhe que dentro de três dias viria levá-la para o Céu. Depois desta visão, seu rosto ficou tão resplandecente que era quase impossível fixar-lhe os olhos.
Ao primeiro canto do galo do dia 19, ela disse: "Eis a hora em que Jesus nasceu de Maria Virgem. Que galo imponente e lindo seria aquele, o primeiro a cantar naquela noite maravilhosa! Ó Jesus, que resgatastes o mundo, que resgatastes a mim!"
Em seguida, disse baixinho: "Silêncio... Silêncio!..." E deixou pender a cabeça, como se dormisse. Sua alma acabava de entrar na glória celeste.


Texto baseado em: QUEIROZ, Antonio. Revista Arautos do Evangelho, Nov/2004, n. 35, p. 22 à 25)


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Francisco: O homem morto.

Francisco: O homem morto.
Dia de memória da morte de Francisco de Assis –  04 de outubro


Todo debilitado, com voz fraca, sumida, entoa Francisco o Salmo 142: “Com minha voz clamei ao Senhor…”. O Salmo vai sendo entoado pouco a pouco, e ao chegar ao versículo “Arranca do cárcere minha alma, pra que vá cantar teu nome, pois me esperam os justos e tu me darás o galardão”. Faz-se grande e profundo silêncio. Acabara de morrer, cantando, Francisco de Assis. Quem é este que transfigura o trauma da morte em expressão de liberdade tão suprema? Desaparece o sinistro da morte. E Francisco vai ao seu encontro como quem vai abraçar e saudar uma irmã muito querida (Sermão proferido por Frei Nilo Agostini, na Festa de São Francisco de Assis, 04/10/1991).
No dia 03 de outubro de 1226 faleceu Francisco de Assis. A igreja comemora o dia 04 de outubro. A morte vem para todos. Romanos 6.23 - Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Francisco já havia morrido. Morreu para o mundo quando aceitou Jesus como Senhor e Salvador e colocou o Evangelho como regra de sua vida. Descobriu um caminho velho e novo: caminhou pela ladeira do arrependimento.  Já era um homem morto. Totalmente morto.
Com isso, vivia crucificado com Cristo. Tinha a mente de Cristo. Podia dizer como Paulo: não mais vivo eu, mas este viver que agora tenho na carne vivo pela fé em Jesus Cristo que me amou e morreu por mim.
Este é o segredo de Francisco. Vivia como morto. Por isso não valorizava o dinheiro, o lucro, a ganancia, a briga, as cruzadas, os cargos eclesiásticos.
Como morto, preferia valorizar as borboletas, os pássaros, a água, o fogo, o vento, os homens, os vivos e os mortos.
Como morto fazia liturgias, orações, cânticos. Era extremamente feliz. Já havia perdido tudo. Não possuía mais nada. Andava como morto. Morreu para o mundo e estava vivo para Deus.
Talvez tenha sido o homem mais vivo que eu ouvi falar. Era vivo para as coisas de Deus. Era vivo por que já havia morrido e sua vida estava oculta com Deus em Cristo Jesus.
Sua morte corporal foi apenas uma troca de roupa. Abraçou o Pai e beijou Jesus. Sua paixão era Deus, o criador, que tanto lhe inspirou a dizer: “Louvado seja meu Senhor!”









domingo, 25 de setembro de 2016

O QUE SIGNIFICA SER UM FRANCISCANO EVANGÉLICO

13445663_529780280556666_5970598303304328380_nMinha caminhada com Francisco de Assis começou há alguns anos atrás. Fui apresentado ao místico pobrezinho de Assis por um pastor amigo meu. No começo, confesso que a vida deste santo homem de Deus não me surpreendia muito. Admito que, como a maioria das pessoas, para mim Francisco era aquela figura relacionada com a ecologia, que vestia uma roupa engraçada e sempre estava rodeado de bichinhos. Hoje, louvo a Deus por não ter sucumbido à minha primeira impressão imbuída da mais pura ignorância: comecei a ler sobre a vida e obra do chamado Santo de Assis. E o que se descortinou perante mim foi um modelo de vida e espiritualidade cristã que há seis anos têm impactado e transformado profundamente a minha vida.
Francisco nunca quis criar algo como uma “espiritualidade franciscana”. Ele apenas experimentou Deus numa dimensão de grande profundidade mediante uma amizade íntima com o Senhor Jesus Cristo. Ele também não objetava a criação de uma nova ordem na igreja católica romana. No entanto, sua vida, propósitos e paixão eram tão ardentes que começaram a contagiar outras pessoas que o conheciam, tanto homens e mulheres, o que tornou inevitável a fundação não apenas de uma, mas, três ordens chamadas franciscanas: a 1ª Ordem, a Ordem dos Frades Menores (OFM), a 2ª Ordem, a Ordem de Santa Clara (Clarissas) e a 3ª Ordem formada por não religiosos, a Ordem Franciscana Secular (OFS). Cada uma com seu carisma distinto, mas, unidas num objetivo em comum: Seguir o Cristo dos Evangelhos à moda de Francisco, tendo-o como seu fundador, pai espiritual e modelo de inspiração.
Talvez uma das coisas mais intrigantes que envolvem Francisco e seu movimento de renovação espiritual é que mesmo após ter passado oito séculos desde sua morte, sua vida, exemplo e espiritualidade continuam a arrastar multidões atrás de si. E engana-se quem pensa que apenas pessoas das fileiras católicas romanas. Francisco é mais do que um Santo católico da idade média. Ele é um patrimônio da humanidade. Sua vida toca e desafia pessoas tanto do ramo secular quanto religioso (cristão e não cristão). E no ramo religioso cristão, sem sombra de dúvidas, Francisco é o personagem da tradição católica mais amado, reverenciado e respeitado pelo ramo evangélico/protestantes. Já foram muitos os acadêmicos protestantes a escreverem livros e artigos sobre a relevância de sua vida e obra para o aprofundamento de uma autentica espiritualidade centrada no Evangelho de Jesus.
No entanto, talvez o aspecto mais impressionante da importância do pobrezinho de Assis entre os protestante seja a fundação de comunidades franciscanas de confissão protestante no século XIX. Logo após a Revolução Industrial comunidades anglicanas e luteranas que seguiam a orientação franciscana formaram-se próximas aos rincões de pobreza e miséria de suas cidades, tanto na Inglaterra quanto na Alemanha. Algumas delas se extinguiram, outras, no entanto, permanecem até os dias de hoje.
Pensar em comunidades e ordens franciscanas de confissão não católica romana soa um pouco estranho aos ouvidos de cristãos latinos, sobretudo brasileiros como nós. Contudo, sua presença na América do Norte, principalmente nos EUA, é de expressão considerável.
Depois que tive contato com a vida de Francisco, o carisma de renovação e a espiritualidade que surgiram em torno dele, brotou dentro de mim o desejo de fazer parte de uma ordem franciscana formada por cristãos de minha confissão, ou seja, evangélicos/protestantes. Principalmente depois de descobrir, como foi dito acima, que existem ordens desse tipo espalhadas pelo mundo. Foi aí que Deus colocou no meu caminho a OESI (Ordem Evangélica dos Servos Intercessores) que é um grupo interdenominacional de cristãos evangélicos que estudam juntos a espiritualidade clássica e os pais da igreja. Fazemos parte do movimento mundial chamado de Novo Monasticismo. Reunimo-nos todos os sábados num grupo de sete pessoas, e juntos estudamos a história, a espiritualidade cristãs e intercedemos por vários motivos.
Neste ano de 2016 fundamos um braço da OESI, uma outra ordem ligada a ela: a OFSE (Ordem Franciscana Secular Evangélica) que se reúne todo o último sábado de cada mês para o estudo das fontes franciscanas originais.
Sendo assim, nos consideramos cristãos evangélicos/protestantes e também franciscanos porquanto temos descoberto um tesouro espiritual de inestimável beleza e profundidade oculto na vida e obra desse homem de Deus que viveu na idade média, Francisco de Assis. Somos Franciscanos Seculares porque estudamos a espiritualidade franciscana e não fizemos votos religiosos; e evangélicos porque fazemos uma releitura do carisma franciscano adaptando-o para o contexto de cristianismo protestante.
Se eu pudesse resumir para mim o que significa ser um Franciscano Evangélico, eu destacaria os seguintes pontos:
Para mim um franciscano secular evangélico significa…
  • Ser um discípulo renascido na Graça de Deus por intermédio da fé em Jesus Cristo.
  • Ser um discípulo que passou pela experiência do arrependimento de pecados.
  • Ser um discípulo chamado a seguir e imitar a vida do Senhor Jesus Cristo.
  • Ser um discípulo perdidamente apaixonado por Jesus, que busca a cada dia estreitar ainda mais um relacionamento de íntima amizade com Ele.
  • Ser um discípulo que ama o Evangelho e o tem como única Regra de sua vida e prática (sendo que o restante das Escrituras ou são pré-figurações ou desdobramentos do Evangelho da Graça).
  • Ser um discípulo que busca a formação espiritual através da prática das disciplinas espirituais clássicas, sobretudo da Lectio Divina.
  • Ser um discípulo que busca viver as duas dimensões da vida espiritual: ativa e contemplativa.
  • Ser um discípulo que pratica as três virtudes evangélicas: Obediência, Simplicidade (pobreza) e Castidade (fora do casamento).
  • Ser um discípulo que busca ter com a natureza (criação) um relacionamento de respeito e preservação, não de domínio, abuso e exploração da mesma.
  • Ser um discípulo que compreende que a verdadeira espiritualidade é aquela que me coloca em contato com o meu próximo para amá-lo e socorrê-lo em suas necessidades: emocionais, materiais e espirituais.
  • Ser um discípulo que não abre mão do viver inserido numa comunidade de fé com o propósito da adoração a Deus, comunhão e edificação mútua.
  • Ser um discípulo que busca testemunhar o Evangelho, primeiro com o próprio exemplo de vida e depois com palavras.
Acredito que esses pontos acima definem bem o que quero dizer com ser um franciscano secular evangélico.
Se você quiser saber mais sobre nós, convido-o (a) a visitar-nos:
Deus o(a) abençoe!
Paz e bem!
tau

quarta-feira, 29 de junho de 2016

2ª Reunião da Fraternidade Franciscana Evangélica

No último sábado de junho, dia 26 de janeiro de 2016, tivemos nossa segunda reunião sobre o carisma franciscano (OFSE - Fraternidade do Rio de Janeiro). Na oportunidade, estudamos o carisma de Francisco presente em sua cronologia histórica. Foi muito agradável compartilhar a leitura protestante sobre o carisma de um famoso santo católico. Francisco de Assis foi um homem cristão que venceu os perigos da igreja pela radicalidade do Evangelho de Jesus Cristo.






Cronologia de Francisco de Assis
1182 - Nascimento de Francisco em Assis. Que recebe o nome de João. Seus pais são Pietro Bernadone e Madonna Pica.
1193/1194- Nascimento de Clara em Assis. Seus pais são Favorone de Offreduccio e Maddonna Ortolana.
1198- Em janeiro, é leito papa Inocencio III. Em março, os cidadãos de Assis assediam e derrubam a Rocca, fortaleza feudal e imperial
1202- Guerra em Perugia e Assis. Na batalha de Collestrada, Francisco e feito prisioneiro e levada a Perugia.
1203- Francisco, é libertado de seu cativeiro, e regressa a Assis.
1204- Francisco fica enfermo.
1205- I) Francisco parte para a luta, com o exército. Em Espoleto tem um sonho que da outro rumo a sua vida e o faz voltar para Assis. II) Na segundo metade do ano começa a conversão inicial do Santo: vai se afastando dos amigos, intensifica a vida de meditação e orações, vive na companhia dos pobres e dos leprosos, “o beijo no leproso”, vai em peregrinação a Roma, o Crucifixo de São Damião pede para que “repare sua Igreja”.
1206- No mês de março, perante o tribunal do bispo de Assis, renuncia ao bens paternos e a sua família. Se muda par Gubbio onde permanece alguns meses servido aos leprosos. Regressa a Assis, hospeda-se em São Damião e veste o hábito de ermitão.
1206/08- Trabalha na restauração das ruínas de São Damião, São Pedro e Santa Maria de Los Angeles e de Porciúncula.
1208- I) em abril, quando ouvia a missa em Porciúncula, escuta o evangelho sobre o envio dos discípulos e sua missões, onde descobre suas vocações evangélicas e apostólicas. II) Um pouco depois, se unem os três primeiros companheiros: Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani e Gil de Assis. III) Iniciam a missão pela região de Ancona, onde se unem novos companheiros, e Francisco os envia a pregar de dois em dois.
1209- Francisco escreve a “forma de vida” a regra que o Senhor o havia inspirado. Na primavera, viaja a Roma com seus onze companheiros, e o papa Inocencio III, aprova de forma verbal seu modo de vida. Regressam a Assis e permanecem em Rio Torto.
1210- A pequena fraternidade se muda par Porciúncula.
1212- I) Em 18/19 de março, na noite de Domingo de Ramos, consagração religiosa de Santa Clara em Porciúncula, dando inicio assim II Ordem Franciscana e das Clarissas. De imediato Clara se hospeda em um monastério beneditino, até que em princípios de maio muda-se para São Damião. II) No outono, Francisco embarcou rumo a Síria, porem ventos contrários fazem fracassar o intento, e regressa a Ancona.
1213/1214- Viajem de Francisco pela França e Espanha, a caminho do Marrocos. Uma enfermidade o obriga a regressar a Porciúncula.
1215- Em novembro, o Concilio IV, em que seguramente Francisco esteve presente entre os fiéis.
1216- No mês de julho, morre Inocencio III e o sucede Honorio III, a quem Francisco pede em seguida a “Indulgencia de Porciúncula”.
1217- Em Pentecostes, 14 de maio, se celebra em Porciúncula o primeira Estrutura Geral. A Estrutura se divide em 12 províncias e nomeia seus dirigentes.
1219- I) A Estrutura Geral celebrada em Pentecostes, 26 de maio, envia a Marrocos os 5 promártires da Ordem. II) Pouco depois Francisco embarca par Acra e Damieta, e é recebido pelo Sultão do Egito.
1220- Francisco regressa apressadamente a Itália devido aos problemas que haviam surgido na Ordem. A pedido do Santo, Honório III nomeia o cardeal Hugolino protetor da Ordem. Francisco se retiro do governo da Ordem e nomeia Vigário seu Pedro Cattani.
1221- I) Em março morre frei Pedro Cattani e o substitui frei Elias com vigário de São Francisco. II) No pentecostes estuda a Regra escrita pôr São Francisco (chamada primeira regra) e pede que redija uma mais breve.
1223- I) Francisco compõe a regra definitiva na fonte Colombo, que é aceita em 11 de junho, e aprovada e confirmada mediante oficio do papa Honório III em 29 de novembro. II) Em 24/25 de dezembro, celebração do Natal na Grécia.
1224- De 15 de agosto a 29 de setembro, Francisco passa a quaresma em São Miguel no monte Alverna, onde são impressas as Chagas da Paixão de Cristo, Depois retorna lentamente a Assis, sem deixar de pregar pôr onde passa.
1224/25- Francisco sofre de várias doenças, entre elas uma grave nos olhos, porém segue fazendo viagens apostólicas para pregar aos povos.
1225- Entre março e abril, compõe em São Damião o Cântico do Irmão Sol.
1225/26- Francisco se submete a várias curas dolorosa, em Assis, em Rieti, na Fonte Colombo e em outros locais.
1226- No mês de abril, em Siena, onde encontrava-se para tratamento, agravam-se suas doenças. No regresso a Assis, de detém algum tempo nas “Celas” de Cortona, chega a Porciúncula, porem marcha a Bagnara, nas montanhas, nos arredores de Assis. Seu estado de saúde segue piorando progressivamente. É trasladado para Assis, onde fica hospedado no palácio episcopal.
1226- I) Ao sentir-se cercado pela irmã morte, pede que o levem a Porciúncula. Ali, no Sábado 3 de outubro, as 19:00 horas, morre Francisco com a idade de 44 anos. II) No Domingo dia 4 de outubro, pela manhã, o corpo de Francisco e trasladado para Assis, para São Damião, onde estão Clara e suas irmãs, sendo sepultado na igreja de São Jorge.
1227- Em 19 de março é eleito papa o cardeal Hugolino. Protetor da Ordem e amigo de São Francisco, que usa o nome de Gregorio IX.
1228- Em 16 de julho, Gregorio IX canoniza a Francisco de Assis.

domingo, 19 de junho de 2016

Primeira reunião da OFSE - Fraternidade do Rio de Janeiro

No dia 28 de maio de 2016 a OESI realizou sua primeira reunião da OFSE - Ordem Franciscana Secular Evangélica. Lemos e aprovamos o Documento da Ordem e criamos a Fraternidade do Rio de Janeiro. Teremos uma reunião da Fraternidade todos os últimos sábados de cada mês. Estiveram presentes os seguintes irmãos: Marisa Sardinha, Edson Sardinha, Gleisto Sérgio, Filipe Maia, Edmar, Patrícia, Evelyn e Raul. Somos cristãos evangélicos que estudam e atualizam o carisma franciscano para a Igreja do século XXI.





domingo, 4 de outubro de 2015

Dia de Francisco de Assis e Sua Mistagogia

A Mistagogia de Francisco de Assis
Texto de Rev. Edson Cortasio Sardinha

            Em seus escritos, Francisco deixou um Testamento. Nele não fez outra coisa a não ser relembrar sua experiência inicial com o Senhor Jesus e como foi aos poucos deixando o mundo. Francisco, em seu Testamento, volta todo o tempo àqueles momentos iniciais de sua caminhada. Ele diz: "O senhor deu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência assim: como tivesse em pecado, parecia-me demasiadamente amargo ver leprosos. E o próprio Senhor conduziu entre eles e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo, converteu-se em doçura da alma e do corpo; e, em seguida, detive-me mais um pouco e saí do mundo". (Testamentos, p. 83).
            Francisco em seu testemunho e nas primeiras biografias fala de sua experiência com Jesus e sua conversão e como também os homens e mulheres podem fazer este caminho no mistério da fé. Ele tem um propósito mistagógico. Deseja orientar seus seguidores a entrar no mistério do Encontro com o Evangelho. Ele demonstra o caminho. Seu desejo é apresentar o mistério e sua práxis. Para isso usa de palavras simples, relatando sua caminhada rumo ao Senhor do Evangelho.

1. A Experiência com o Mistério
            A memória que Francisco resgatada constantemente em seu caminho remete a experiência com o mistério. A ideia de ‘memória’ aqui é reviver; saber que existe algo que fundamenta toda a caminhada. Algo que não está simplesmente esquecido no passado e sim, presente e atuante. Francisco rememora na tentativa de possibilitar o entendimento. Podemos dizer que rememorando, o santo se faz mistagogo. Sua mistagogia é trabalhada e se transforma em instrumento pedagógico para se fazer a experiência de Deus. Esta pedagogia "subliminar" irá influenciar toda a cristandade e ainda é provocadora em muitos movimentos cristãos, inclusive protestantes. 
            Celano inicia sua Segunda Vida (IICel) informando que o propósito em escrever a vida e Francisco é  "para consolação dos presentes e memória dos futuros" (IICel 1.1). Afirma que teve "conhecimento direto, por convivência assídua e mútua familiaridade com ele" (II Cel 1.1). Ou seja, foi influenciado diretamente da sua mística. Esta transmissão da mística fez de Francisco o grande mistagogo. Aquele que ensinou com a vida a mística de ser de Deus e viver o Evangelho no cotidiano e na pessoa do próximo.
2. O Homem Novo
            Francisco, para Celano, é o símbolo do novo homem que vive o Evangelho e precisa ser seguido e imitado. É o início de uma nova geração na vida da igreja. "Fruto da ação de deus para os últimos dias". Cria que, em Francisco, estava começando uma nova história de restauração e avivamento da igreja.
            O "Pobre de Assis" se transformou num arquétipo de homem evangélico que alcança todas as gerações. Um arquétipo que está livre das instituições religiosas e do engessamento da fé oficial. É um místico que extrapola suas barreiras religiosas e se coloca como exemplo de homem que seguiu Jesus com sacrifício e alegria. Sobretudo alegria.

Na verdade, o arquétipo São Francisco não age apenas entre seus filhos; exerce uma fascinante atração difusa, como santo e como Francisco de Assis. Aqui não é preciso deter-se em razões e mecanismos institucionais e culturais (antropologicamente culturais), através dos quais o arquétipo se transforma em veículos de ideologia ou de ideologias e, portanto, em agente de responsabilização individual e coletiva. Nós que vivemos no relativo e contingente não podemos mandar para fora de nós - para a presumida autoridade do arquétipo de santidade, como quer que ele se chama - a legitimação e a coerência das decisões e opções que competem somente a nós: nenhuma autoridade pode dispensar-nos de nossas responsabilidade de indivíduo entre indivíduos. Como se chega a assumir a plena responsabilidade pessoal, é outro discurso: talvez através de uma caminha que é moral e cultural ao mesmo tempo e está cheia de dificuldade e não privada de sofrimentos (MERLO, 2005, p. 17).

            Francisco não desejou transformar ninguém. Seu primeiro caminho como místico e mistagogo foi viver a gratuidade do mistério. Viver como um mendigo, não ajudar o mendigo. Não teve pena dos fracos, mas se fez fracos para poder experimentar a dimensão da graça mesmo na fraqueza da vida. Seu caminho de Homem novo não foi um percurso religioso, mas um experiência de total dependência da graça de Deus se fazendo graça para o próximo.

Mas não era suficiente dar esmola aos necessidades, nem ser carinhoso com os mendigos, nem se quer projetar a imagem de Jesus naqueles esfarrapados humanos. A prova mais decisiva do amor, já se disse, é dar a vida pelo amigo. Mas é possível que ainda se possa ir mais alto: Passar pela própria experiência existencial do amigo. Foi o que Jesus Cristo fez com a encarnação. E era o que queria fazer Francisco: Mergulhar nos abismos da mendicidade, experimentar durante um dia o papel de mendigo e o mistério da gratuidade (LARRANHAGA, 2007, p. 48).

            Ele não correu atrás de discípulos. Apenas viveu e experimentou o Evangelho. Sua regra era o Evangelho de Cristo. Antes de sair pregando a Palavra de Deus, viveu a mística da Palavra. Seus amigos se aproximaram e descobriram a beleza de ver a criação como sinal da mão de Deus. 
Francisco de Assis e seus filhos espirituais foram realmente admiráveis. Eles falavam a todos do amor de Deus e o apontavam em tudo, nas maravilhas do universo, no Sol, nas Estrelas e em todos os astros do firmamento infinito. Viam Deus na terra dos homens, nos vales e nos altos picos dos homens, nos rios e nos mares (LEITE, 2004, p. 35).

            Francisco é mistagogo porque sua mistagogia prevalece em seu exemplo de homem novo. Ele conseguiu viver os valores e Jesus numa radicalidade que impressiona. A história tem demonstrado como o caminho que Francisco percorreu se transformou numa tristeza para as pessoas que não conseguem largar suas prisões materiais e uma alegria para os que necessitam de estímulo para viver uma vida nova baseada no caminho novo. LEITE (2004) afirma:             
Quem escreve ou medita sobre São Francisco de Assis não pode deixar de sentir o próprio coração levitado em êxtase, comungar, espiritualmente, a alma encantadora do poverelo, poema de céu numa ação de graça florida e dilatada, e juntamente experimentar a mesma alegria casta e simples do "jogral de Deus", sonhador e poeta, guerreiro ardoroso, aprisionado e desiludido, que se sentiu enfim senhor de si mesmo no dia em que encontrou o leproso e o beijou (LEITE, 2004, p. 7).

            Francisco nunca desejou ser o que a igreja o transformou. Nos escritos de Celano é percebido sua intenção de viver  Evangelho como Regra de vida. Se desejasse ser um monge, entraria em um mosteiro. Se desejasse ser padre teria o apoio do bispo de Assis. Poderia percorrer a vida dos beneditinos ou a Regra dos agostinianos. Mas sua caminha foi diferente. Desejou viver livre na vida como o "jogral de Deus" . Não via no clero ou na instituição exemplos de vida livre. Preferiu fazer o seu próprio caminho. Como disse MACEDO, (1996, p. 59, 60): "O poverelo (pobrezinho) de Assis pretendia regenerar a igreja, mas temia a criação de uma ordem religiosa. Queria uma religião pura, sem instituições ou hierarquias, para não cair nos mesmos erros do clero".
            Ele não desejou ser uma santo. Na Primeira Vida, Celano demonstra que Francisco vivia uma vida "mundana e secular". Foi educado para viver para o "mundo". Sua mudança não foi uma ação de sua própria vontade, foi uma ato da graça de Deus. A teologia da graça é o único caminho para entender a mistagogia franciscana. Francisco, o homem novo,  encontrou a mão da graça de Deus, esta é a única explicação teológica:    

A graça é o dom de Deus que contem todos os outros, o de seu Filho, mas não é simplesmente objeto desse dom, É o dom radiante da generosidade do doador e que envolve com essa generosidade a criatura que o recebe. É por graça que Deus dá, e aquele que recebe seu dom encontra graça e complacência diante dele. (LEON-DUFOUR, 1999, c. 386).

3. O modelo da mistagogia Franciscana

            O segredo de Francisco foi seu encontro com o Evangelho de Cristo e sua experiência mística com o próprio Cristo. Mesmo tempo o exemplo das legendas e dos testemunhos de muitos santos e santas, nunca teve nenhum homem como modelo. Como diz ERICKSO, (1991, P. 71): "Francisco de Assis enfatizava a imitação de Cristo através da pobreza absoluta, humildade e simplicidade".
            Como mistagogo que seguia o modelo de Cristo, conseguiu imprimir um dinamismo evangélico e espiritual em seus seguidores. Isso não foi fruto de uma elaboração intelectual e intencional, como afirma MERINO (2006, p.17):

Francisco de Assis foi um homem  profundamente evangélico e não um intelectual, nem propôs o saber como missão essencial de evangelização para seus membros. mas soube imprimir tal dinamismo espiritual e evangélico em seus seguidores que foi capaz de criar um estilo peculiar de viver, de habitar no mundo e de interpretar a própria vida e o que acontece nela e , a partir daí, a elaboração de um sistema filosófico-teológico característico da família franciscana.
           
            Nenhum outro homem teve uma vida tão livre e tão desejada no decurso da história da Igreja. Sua mistagogia pedagógica é admirada por protestantes, católicos e líderes de diversas religiões. Muitos homens ficaram famosos por conquistarem terras, reinos e poder. O que Francisco conquistou enquanto estava vivo? O que o distingue dos demais heróis? O homem que, "mais do que qualquer outro, viveu como Jesus e amou todas as criaturas pequenas e grandes, vivas e inanimadas. E, sobretudo, o homem que amou ternamente a Deus, Pai e Criador do irmão sol, da irmã lua, das estrelas, da mãe terra e de todas as outras coisas". (ROMA, 1996, p. 30).

Francisco distingui-se pela perenidade de sua vida pobre, humilde, fraterna, evangélica e transformadora. Francisco, "o homem feito oração", se impõe 800 anos depois, porque viveu em profundidade a mensagem de Jesus Cristo. Francisco escolhe como regra de vida o Evangelho: "A regra e a vida dos frades menores é esta: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem propriedade e castidade". Nada mais! (ABATI, 2003, p. 93, 94).

4. A Teologia mistagógica de Francisco
            A Teologia Francisca é um novo caminho das ciências teológicas. Ela está baseada mais na vida de Francisco do que no seu pensamento. Não segue o caminho do conhecimento e da razão, mas o caminho da fé que permite a razão trabalhar conteúdos novos e provocativos. Sua mistagogia teológica tem como único elemento: a fé. O livro Teologia Franciscana, organizada por MERINO (2005, p.14) explica este novo caminho teológico:
O suporte vital do pensamento franciscano não são tanto ideias da filosofia grega, mas as verdades reveladas pelo cristianismo. É uma filosofia na fé. Pois bem, a fé não se opõe à razão humana, mas a transcende e se oferece como um suplemento de luz. A fé não é algo irracional ou contra-racional, mas metarracional. E seu ensinamento não se refere a um saber das coisas, mas a um orientar a vida humana segundo um projeto revelado, quer dizer, a um saber sapiencial (MERINO, 2005, p. 14).

            O Franciscanismo nunca foi uma teologia para fazer novos "Franciscos", mas uma novidade para transformar homens e mulheres a semelhança de Cristo. Assim como não seguiu a nenhum homem ou fundador de movimentos institucionais ou heréticos, Francisco também nunca desejou ser o modelo, mas apresentou Jesus como modelo. Foi o iniciador de uma nova teologia de santidade onde o despojamento total serviu para modelar em si mesmo, (inclusive no simbolismo dos estigmas) um novo Cristo.  Este desejo de tornar "Cristiformes" as pessoas foi herdada por seus seguidores e intelectuais. Transformar pessoas em "novos Cristos" foi a principal proposta pedagógica do movimento franciscano:

O franciscanismo contem uma imposição pedagógica na sua própria espiritualidade. Segundo o pensamento de São Boaventura, o superior deve esforçar-se por tornar "cristiformes" as pessoas a ele confiadas: isto é, imprimir nelas a forma da vida e da doutrina de Cristo, de maneira que não só se dirijam a ele com a alma, mas o imitem nos costumes. O Franciscanismo não consiste numa desencarnada tensão ao sobrenatural, mas sensibiliza o homem também para os valores terrenos. O escopo de forjar homens "cristiformes" não é distinto  do de torná-los capazes de comover-se e exaltar-se pela etérea beleza das flores, pelo límpido gorjeio dos pássaros, pela multiforme vida do universo. (ZAVALLONI, 1999, p. 29).

            Discute-se hoje a atualização da proposta teológica de Francisco. Para PIERAZZI (1994, p.7), "O que ocorreu com Clara e Francisco é uma aventura cujos valores ressurgem hoje mais atuais do que nunca".  Viver a radicalidade do Evangelho e o desprezo pelo mundo de egoísmo e desumanidade é uma urgência.
            Desde o inicio o carisma franciscano não foi direcionado aos religiosos. Não desejava ser uma Ordem para não fechar as portas aos homens e mulheres que ansiavam viver o Evangelho e respirá-lo livremente sem o peso da hierarquia religiosa. Tanto é verdade que não era exigido nenhum tempo de noviciado para ser um irmão Menor como os conventos e mosteiros. Era necessário apenas confessar estar arrependido dos pecados e desejoso de viver o Evangelho segundo a pobreza cristã. Quem desejava esta aventura,  simplesmente recebia o hábito e caminhava de dois em dois pregando o arrependimento e a conversão.  Este caminho estava aberto inclusive para pessoas que necessitavam continuar vivendo os deveres comuns da sociedade.
O carisma proposto e vivido pelo pobrezinho de Assis não se esgotou na vida religiosa. Havia aqueles que, além dos compromissos familiares, se propunham também a uma prática evangélica conforme a Ordem e adequada às condições civis em que viviam. Assim nascia a Terceira Ordem Secular, a primeira instituição leiga a serviço da Igreja. (GAMISSAS, 2002, p. 18).
Francisco é um místico, mas sabe valorizar concretamente a realidade terrestre e humana. Nada impede a quem trabalha honestamente na vida, em qualquer forma, de trabalho, de observar o santo Evangelho (CIANCHETA, 1970, p. 48).

            A mistagogia que nasce com Francisco de Assis é proposta por Tomás de Celano como um novo tempo. O Francisco sem os desenhos institucionais e a moldura da igreja fixado por Celano é um homem livre que deseja construir uma fraternidade de pessoas "apaixonadas pelo Evangelho" com alcance mundial.  Um exemplo disso são os novos trabalhos que releitura de Francisco e sua aplicação para os diversos setores da sociedade. Como fez SANTARÉN, no seu livro A Perfeita Alegria, aplicado para Líderes e Gestores. SANTARÉN diz que Francisco "Compreendeu que o sentido da vida humana não está em criar e acumular riquezas, mas construir fraternidade; assenta-se não no ter, mas no ser solidário e compassivo para com todos os seres criados (SANTARÉN, 2010, p. 58).
            Surpreso pela novidade de Francisco SANTARÉN dialoga com o pobrezinho: "Que ser humano és tu, Francisco? como desenvolveste essa liderança que te fez "o homem do milênio"? e que sou eu diante de ti Francisco? que líder sou eu perto de ti? (SANTARÉN, 2010, p. 13).
            Francisco é hoje uma das maiores riquezas da igreja, porque "se fez pobre para seguir como pobre o Cristo pobre"; como disse BECKHAUSER (2000, p. 184): "São Francisco de Assis, conhecido e reconhecido pela Igreja e por todo o mundo como o Pobrezinho de Assis, continua para o mundo um testemunho de pobreza livremente abraçada, símbolo da maior riqueza do Reino dos Céus.
            Celano inicia uma caminha que plantou nas gerações futuras uma mistagogia de atração para as pessoas que desejam ser melhores e livres das incertezas do mundo tão injusto e egoísta. A aventura do homem de Assis poderia ter morrido com ele mesmo. Seria mais um santo lembrado pela igreja. Mas devido suas muitas biografias (hagiografias) se tornou um modelo de caminho em direção ao Modelo que é o Evangelho de Jesus.
            Celano estava apenas obedecendo uma ordem do Papa, mas se transformou num mensageiro da novidade. Suas biografias e as outras que vieram, divulgaram o que o Evangelho pode realmente realizar na vida das pessoas. Esta história demonstra que é possível viver com qualidade, mesmo no despojamento. É desta forma que lemos o texto poético de BOFF (, 2009, p.11).

Na sua biografia se tornaram visíveis e possíveis sonhos carregados ao longo de toda a vida e acalentados no fundo de nosso coração: uma rerelação amorosa e terna com Deus, Pai e Mãe de infinita bondade, um amor simples a todas as coisas, vivenciadas como irmãos e irmãs; uma discreta reconciliação entre os impulsos do coração e as exigências do pensamento; uma calorosa recepção dos distantes e distintos, feitos próximos, e dos próximos feitos irmãos; uma aceitação jovial daquilo que não podemos mudar; uma inocente liberdade em face das ordens e regras estabelecidas; uma alegre acolhida da morte como amiga da vida.

            O caminho de Francisco não foi cercado de eventos milagrosos e sobrenaturais. O grande milagre foi sua mudança de vida e a mudança que provocou na vida de milhares de homens e mulheres, jovens e velhos, leigos e clérigos. Sua transformação destruiu a estabilidade de seus amidos. Seus roteiros de vida foram mudados por seu testemunho. Como informa PADOAN, 2008, p. 29):

Justamente ele, que até pouco tempo atrás era amado, invejado, seguido, cortejado pelas mais belas moças, não só por causa da sua gentileza e de seus talentos, mas também pela riqueza de seu pai. Parecia mesmo inacreditável que estivesse agora vestido com farrapos e falasse de Deus e do amor ao próximo. Propôs-se a trabalhar como pedreiro e restaurador ao lado de seus novos amigos, convencidos pela pregação de Francisco e unidos pelo seu mesmo entusiasmo.

            Sua mística foi construída na indiferença diante das opiniões dos outros. Respeitou a ordem de ir ao Papa. Respeitou a ordem de escrever uma Regra. Submeteu sua ordem a Igreja e acatou seu direcionamento. Não pensando em sua segurança ou promoção eclesiástica, mas pensando na segurança de seus filhos. É descrito como mãe por Celano. Mãe que cuida de seus filhos e busca sua proteção. Esta é a parábola que apresenta ao papa na Segunda Vida. Uma mãe que trás seus filhos ao rei. Contudo, apesar desta submissão, era completamente livre da opinião dos outros. Críticas e elogios não afetavam mais sua vida. Tinha um propósito e seguiu unicamente sua meta. Não se distraia pelas opiniões das multidões. ALVES (2008, p.106) diz que :

Louvores das multidões não o impressionava, do mesmo jeito que os insultos a ele outrora lançados nunca tinham perturbado. Bendito é o Servo, certa vez ele explicou aos irmãos, que, quando louvado e exaltado pelas pessoas, não se considera melhor que quando o julgam indigente e imprestável. O que quer que um homem seja diante de Deus, ele é isso e nada mais (ALVES, 2008, p. 106).
São Francisco de Assis sempre foi água em movimento. Nunca ficou inerte, vacilante, parado, encostado. Por isso, venceu todos os obstáculos e sempre conservou a água pura, límpida, transparente, potável, recompensa de seu esforço e vontade decidia e firme. Ele sempre alcançou o que queria, porque enfrentava os obstáculos com arrojo e tenacidade. É modelo de conscientização e responsabilidade, sempre ponto para mexer-se , para agir, movimentar-se, para impedir que a água apodrecesse, cheirasse mal, e criasse bichos nocivos (enquanto se fica no primeiro degrau da escada, não se chega no segundo da escada da santidade) (ROMBO, 2010, p. 14).

            Os últimos anos da vida de Francisco foram de grande insatisfação com as divisões internas da Ordem. O crescimento dos clérigos na nova Ordem trouxe uma redirecionamento nunca desejado por Francisco. Teve um tempo de grande lutas ao ponto de ir com Frei Elias ao monte buscar direção de Deus para sua caminhada. No monte conseguiu uma única resposta: os estigmas. Desce do monte feliz e realizado. Entendeu que sua vida não foi para gerenciar uma Ordem eclesiástica, mas para apontar Cristo com seu próprio testemunho. Estava agora preparado para a morte. A morte nada mais seria do que a inauguração de uma mistagogia livre do poder eclesiástico.
            É neste sentido que BOBIN (1999, p. 92) apresenta a morte de Francisco com a ferramenta da poesia abstrata:

Louvado seja o Senhor pela nossa irmã, a morte. Eis ai; está dito, está feito: ele nada mais tem entre a vida e sua vida, ele nada mais tem entre ele e ele, ele não tem mais nem passado nem presente nem futuro, mais nada além do Deus Baixíssimo, frequentemente Altíssimo, muitas vezes espalhados em todo lugar como água ( BOBIN, 1999, p. 92).



            As hagiografias, ou Bio-Hagiografias como as denomina MERLLO (2005) tentou apresentar um homem que viveu como simples humano a radicalidade do Evangelho. Seu milagre se estendeu nos seguidores. O carisma passou a ser desejado pelos crentes. Sua história se transformou em mistagogia. Sua pedagogia de viver a vida é um "grito" desejado por muitos homens e mulheres. Antes de morrer viu sua vida com um presente de Deus.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      "Fez uma recapitulação mental dos vinte fecundos anos, e sentiu uma imensa satisfação e gratidão pela missão cumprida. Abriu os olhos, voltou-os para os irmãos e disse, com voz vigorosa: "Com a graça de Deus, cumpri meu dever; que Cristo vos ajude a cumprir o vosso" (LARRANHAGA, 2007, p. 391).

5. Francisco hoje: Viver a altura do Evangelho
            Tomás de Celano, como primeiro biógrafo de Francisco, inicia seus livros e termina afirmando que a novidade de Francisco, sua mistagogia, é a redescoberta do Evangelho do Senhor Jesus. O esforço de Francisco foi, após a conversão, viver à altura do Evangelho. Sua vida foi moldada pela vida de Cristo. Seu enfoque foi reproduzir, na Idade Média, o Evangelho de Cristo vivido e proclamado no primeiro século. Desejou ser mais um cristão no grupo dos discípulos que caminhou no Evangelho.
            Hoje o grande desafio é viver à altura do Evangelho. Para este percurso Francisco de Assis se coloca como mistagogo, aquele que ensina o mistério da vida cristã segundo o Evangelho.
            O Assistente Espiritual Nacional da Ordem Franciscana Secular do Brasil (OFS), Frei Almir Ribeiro Guimarães, escrevendo para a Revista especializada em Franciscanismo Secular, discorre sobre a relação dos franciscanos com o Evangelho com o tema "Importa Viver à Altura do Evangelho (GUIMARÃES, 2011, p.14,15). Ele inicia seu texto onde Francisco inicia sua nova vida: No Evangelho. Ele diz: 

Esta é uma certeza. O Evangelho continua sendo uma Boa Notícia, bela como a graça e ardente como o amor, que transforma quem recebe com o coração de criança: "Eu te louvo, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelastes aos pequeninos". O Evangelho continua sendo um caminho de liberdade para quem o acolhe em seu imediatismo, seu frescor, sua radicalidade (Ibid., p.14).

            Quando Francisco descobriu o Evangelho, ele descobriu uma pessoa. Foi sua relação com o Jesus Cristo dos Evangelhos que transformou sua vida. Hoje este encontro com o Jesus de Francisco nos impulsiona a buscarmos a construção de uma fraternidade. Imitar o Senhor Jesus foi a direção apresentada pro Francisco. Este caminho de "imitação" precisa ser reanimado hoje nos movimentos que desejam viver a radicalidade do Evangelho. Será um exercício de transformação a partir da compreensão cósmica e holística da Pessoa divina que é o Evangelho. Como diz GUIMARÃES:

O Evangelho não é um livro, um texto escrito, morto. É alguém, uma Pessoa. É Cristo Senhor, vivo e ressuscitado. Paulo não conheceu o Cristo histórico e se apaixonou pelo ressuscitado que lhe apareceu na estrada de Damasco. Uma força, um poder que vem da vitória de Cristo sobre a morte, o caos, a desarmonia. Força de vida que procede do amor desmesurado do Pai que manda o Filho, Filho que anuncia carinho e misericórdia, que morre e ressuscita para dar aos nossos dias um sentido diferente: ser para, buscar a construção de uma fraternidade, de um reino que começa nas coisas pequenas, agir como um fermento no coração da realidade. O Evangelho não é algo adocicado e sem força. Cristo mesmo afirmou que viera lançar fogo à terra (Ibid., p.14).


            A mensagem de Francisco para hoje é que a Igreja viva a altura do Evangelho numa fé vigilante. É uma espiritualidade nos que conduz ao novo, acordando homens e mulheres para a vida  que está muito além da cobiça por bens materiais. Ele tem o poder de ampliar os horizontes e demonstrar que a realização do homem e da mulher está na comunhão com Deus que leva ao próximo.

No coração da espiritualidade de Francisco está uma fé vigilante. Os cristãos franciscanos deixam-se conduzir de novo, no meio da noite pela esperança que ganhou rosto em Jesus. Eles despertam de uma sonolência em que vivem os homens, na abundância, opulência e busca de suas coisas. O projeto evangélico de Francisco se funda na fé.  A fé que acredita ser Deus o amor, que seu projeto sobre o homem arrebenta a estreiteza de nossos horizontes. O ser humano precisa ser de Deus (Ibid., p.14).

            O esforço de Celano foi apresentar um Francisco que viveu á altura do Evangelho. Por seu exemplo passou a ser uma mistagogo na construção de novos homens. Ele organizou sua biografia no encontro de Francisco com o Evangelho e na resposta de vida que deu a este encontro. Francisco passa ser o modelo de Celano para quem deseja viver a altura do Evangelho.  Viver à altura do Evangelho significa fazer dele fonte da vida.

A ele nos referimos constantemente: vida, casamento, trabalho, contradições, presente e futuro.  Esse Cristo, Boa Nova, vivo e ressuscitado, nos toma na totalidade de nosso ser e marca encontro conosco nas esquinas de nossa peregrinação no rosto dos mais desvalidos, na sua Palavra que nos revigora, nas inspirações a sairmos na mediocridade e atingirmos os pícaros de uma vida de santidade (Ibid., p.14).

            Um dos documentos antigo das Fraternidades Seculares da França assim descreve esse viver a altura do Evangelho:

"Para viver a altura do Evangelho não nos contentamos de transportar para nossa vida uma atitude ou um gesto de Jesus ou de repetir uma ou outra de suas palavras. Mas fundamentalmente, abrimo-nos à ação de Espírito nos esforçaremos de inventar no decorrer de nossa existência a maneira como Cristo quer viver em nós, no meio dos homens". Nós, os seus discípulos somos sua presença vigorosa, forte, no meio da contradição do mundo (PAZ e BEM, 2011. p. 15).


            A contribuição de Francisco para hoje é a transformação que a sociedade pode sofrer se redescobrir o Evangelho que Francisco descobriu. Esta experiência tem o poder de mudar as experiências do mundo de um mundo esgotado pela falta de valores baseados no amor.
           
         A força do Evangelho precisará tornar-se presente em várias situações do mundo de hoje. Há um diferentismo entre as pessoas. O Evangelho nos leva a fazer pontes e a evitar todo distanciamento. Vale sempre o ditado: cada um por si e Deus por todos. Nossos tempos são marcados por uma busca de bem estar, de consumo. Parece que os homens querem armar a tenda da existência para sempre nas coisas que passam. Há ainda essa perda de lembrança do que passou e um desinteresse pelo que vem. Vivemos o momento presente, seco, esgotado, sem esperança de plenitude alguma. O mundo rola e rola (Ibid., p.14).


            Cristo é o centro da vida franciscana. As constituições Gerais da OFS lembram que há um compromisso dos franciscanos de observar o Evangelho. Há um apelo para que os novos franciscanos lembrem do propósito feito, da promessa de construir, à sua volta, um mundo nova partir do Evangelho. As Constituições Gerais, citada por Guimarães, orientam que os que desejam um caminho novo a luz do Evangelho vivido por Francisco,

"Procurem aprofundar à luz da fé, os valores e as opções da vida evangélica, segundo a Regra da Ordem Franciscana Secular: num itinerário continuamente renovado de conversão e de formação; abertos às exigências que vêm da sociedade e das realidades eclesiais, passando do Evangelho à  vida e da vida ao Evangelho; na dimensão pessoal e comunitária deste itinerário" (art 8). Fica claro que nossa profissão nos leva a procurar viver à altura do Evangelho. Tal será mais fácil se ingressarmos vigilantemente num processo de conversão (disciplina de vida, cura do egoísmo, prontidão para o serviço, abraço com a cruz). Há este vai e vem entre Evangelho e vida e vida e Evangelho. (GUIMARÃES, 2011, p. 15).

            Na vivência do Evangelho não basta um verniz de piedade e de religiosidade. O Evangelho questiona o comportamento do religioso diante do trabalho, do dinheiro, do lucro, das ofensas, da pastoral, da evangelização, da partilha, da sexualidade, da prática nem sempre límpida da fé.
            Com Francisco de Assis é descoberto uma dinâmica nova na evangelização: Os que evangelizam os que são evangelizados ou estão num processo de transformação.
            Paulo VI em 1975 disse:

"Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude. Não haverá humanidade nova, se não houver, em primeiro lugar homens novos, pela novidade do batismo e da vida segundo o Evangelho. A finalidade da evangelização é precisamente esta mudança interior; esse fosse necessário traduzir isso em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando, unicamente firmada na força divina da mensagem que proclama, ela procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que se aplicam e a vida e ao meio concreto que lhes são próprios" (PAULO VI, Evangelii Nuntidandi, 1975. item 18).



            A vida de Francisco desloca a imagem tradicional de Deus para um novo enfoque: do Deus criador providente, ocioso, intocado na sua imobilidade para o Deus pessoal envolvido na história; do Deus Pai poderoso, legitimador da ordem vigente para o Deus Pai misericordioso e libertador do povo; do Deus Altíssimo, distante da vida para o Deus próximo da vida humana concreta; do Deus legislador ao Deus comprometido com a liberdade e libertação humana; do Deus crido nas formulações dogmáticas para o Deus acolhido no testemunho da entrega do Filho; do Deus insensível ao sofrimento injusto dos pobres para o Deus envolvido com o sofrimento deles.